Tondo Doni

“O tondo é uma encomenda provavelmente motivada, quer pelas núpcias de Agnolo Doni e de Maddalena Strozzi em janeiro de 1504, quer pelo nascimento de seu filho, em 1506. Entre 1503 e 1506 incide a maioria das propostas de datação da obra.

Há, entretanto quem o date de 1507-1508, imediatamente antes ou em concomitância com os afrescos da abóbada da Capela Sistina, valorizando o paralelo entre a cabeça da Virgem e a do Jonas, reforçado por um estudo de cabeça de Michelangelo, hoje na Casa Buonarroti (sanguina, 200 x 172, inv. 1 F), considerado como preparatório para a Virgem ou para o profeta.

Esta ambivalência explica-se, segundo os autores, pela existência de uma fonte comum, o Alexandre agonizante, hoje nos Uffizi, mas em Roma até 1579. As similaridades entre a Virgem do tondo Doni e os afrescos da Capela Sistina, notadamente com as Sibilas, foram já sublinhadas por Wölfflin [1891:54], para quem ela é “”die leibliche Schwester der Erythraea”” (a irmã consanguínea da Eritréia) e compartilha os mesmos motivos e movimentos do torso da Délfica. Em consequência disso, o espaço no fundo do quadro poderia aludir ao próprio Cortile del Belvedere, em construção em 1508 por Bramante.

Natali sugere, enfim, que a ocasião da encomenda do quadro seria o nascimento da primeira filha do casal, em dezembro de 1507. Em 1564, Varchi vê-o na casa de Giambattista Doni, filho de Agnolo e em 1594 a obra já figurava na Tribuna dos Medici.

Na Vida de Michelangelo, Giorgio Vasari assim descreve a obra e sua encomenda:

“”Agnolo Doni – cidadão florentino e amigo seu, que muito se deleitava com belas obras de artistas antigos e modernos -, teve vontade, então, de possuir uma obra de Michelangelo. Começou-lhe este a pintar um tondo com uma Nossa Senhora ajoelhada sobre as pernas, segurando uma criança e estendendo-a a José que a recebe. Michelangelo mostra, no voltar-se da cabeça da mãe de Cristo e nos olhos demorados na suma beleza do filho, o maravilhoso contentamento dela e o afeto com que o compartilha com o santíssimo velho, que o segura com o mesmo amor, ternura e reverência, como bem se lhe observa no rosto, já à primeira vista. Michelangelo, não lhe bastando isto, e para mostrar ainda mais ser grandíssima sua arte, pintou ao fundo diversos nus, apoiados, de pé e sentados, e com tal diligência e acabamento trabalhou esta obra que das suas pinturas sobre madeira, embora poucas, é decerto considerada a mais acabada e bela””.

O tondo é executado a tempera grassa, têmpera com óleo resinoso, ou em parte à têmpera, em parte a óleo. As referências primeiras da obra, em termos estilísticos e iconográficos, são os três tondos de Signorelli em Florença (Uffizi) e em Munique (Alte Pinakothek, inv. 7391).

Mas o Tondo Doni é sobretudo um ponto de chegada da apropriação pelo jovem Michelangelo da escultura monumental antiga, iniciada nos jardins de Lorenzo de´ Medici (1489-1492) e desenvolvido nas estadas de romanas de 1496-1501 e de 1505-1506. Antigo também é o motivo da faixa da vitória que cinge a cabeça do Menino Jesus. A cabeça de São José poderia inspirar-se no Busto de Eurípedes* do Museo Nazionale de Nápoles, como proposto por Tolnay [1943] e Natali [1985]. No que se refere às figuras do fundo, foram propostas as seguintes referências:

1. Para o primeiro nu do registro posterior da composição, o Apolo sentado, do tipo conservado nos Uffizi; 2. para o segundo nu, o Apolo do Belvedere; 3. para a relação entre o primeiro e o segundo nu, um grupo como o Pan e Dafnis, dos Uffizi; 4. para o nu imediatamente à direita de São José, o Laocoonte; 5. para o nu à direita, com o braço direito dobrado, um dos Eros funerários similares ao exemplar dos Uffizi.

A posição da obra como matriz dos desenvolvimentos da maniera florentina, e posteriormente européia, da geração de Pontormo e de Rosso (nascidos em 1494 e 1495), foi definida por Roberto Longhi em uma série de intervenções que tem sua mais acabada expressão nos artigos da revista Paragone de 1951, 1953, 1958 e 1969. De 1951 é a mais enfática caracterização da obra:

“”Se não um “”movimento”” regulado e disposto, como ocorre hoje nos fatos de arte, ao menos uma atitude que se pode chamar `maneirista`, houve decerto, e muito difundida, no nosso Quinhentos. Mas como a entender, se não se admite que começa ao menos desde o Tondo Doni, na realidade seu emblema fundamental?””

As cinco cabeças de profetas na moldura são atribuídas a Francesco e Marco del Tasso.

Luiz Marques
26/10/2011″

Artista

Michelangelo Buonarroti

Data

1504/ 1507

Local

Florença, Galleria degli Uffizi

Medidas

91 x 80 cm

Técnica

Têmpera sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

606A - Anunciação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo; 606A18 - A Sagrada Família

Autor

Luiz Marques

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