Retrato do Cardeal Luigi Alessandro Omodei

Registro inventarial: inv. 880

Sobre o papel dobrado em quatro que o retratado tem na mão
esquerda, pode-se ler: …R[o]ma. Sig[nore]…
Card[inale] Al[essandro ou oisius] Omo[dei]. Per Gio[vanni]
Baci[c]c[io]
.

A publicação da obra deve-se a Federico Zeri (1955:53), que
identifica o retratado, sem mencionar a assinatura. A obra é
entretanto assinada por Giovanni Battista Gaulli, chamado
Baciccio (1639-1709), o que desqualifica as dúvidas sobre
sua atribuição manifestadas por Manning (1962) e Matteoli
(1984), que a atribui a Andrea Sacchi.

O retrato de Omodei inscreve-se no gênero do retrato oficial
sob cortinado, cujas origens, possivelmente francesas,
remontam à primeira metade do século XV. Ele figura entre os
mais importantes de toda a retratística gaulliana, já pelo
fato de dilatar enormemente os formatos recorrentes do busto
ou do torso, mas também pela complexidade com que Gaulli
constrói seu modelo no espaço. A ligeira inclinação do
corpo, no sentido das pregas da cortina, articula-se a um
deslocamento dos ombros, que faz emergir de mais fundo o
braço esquerdo, percorrido por um rastro tortuoso de luz. A
este deslocamento dos ombros, corresponde um contraponto
entre as diagonalidades da cabeça e da direção do olhar, que
permite à figura apropriar-se plenamente do espaço.

A literatura histórico-eclesiástica, desde Cardella (1793,
VII: 91) e Moroni (1848: ad vocem), fixou os traços
biográficos, do cardeal Luigi Alessandro Omodei (1608-1685),
descendente da casa milanesa dos Marqueses de Villanova e
Fioppera. Laureado pela Universidade de Perugia, com 20
anos, em ambe leggi [Moroni], após estudos
preparatórios em Pavia, transfere-se para Roma em 1630, onde
o Papa Urbano VIII o promove a Clérigo de Câmara e, em
seguida, a Provedor Geral das Fortalezas do Estado
Eclesiástico.

Bem sucedido na difícil administração das tropas do Estado
Pontifício, onerosas e disseminadas em diversas frentes,
Omodei avança com rapidez em sua carreira, sob Inocêncio X,
que o nomeia Comissário Geral das Milícias, em todo o Estado
Pontifício, com absoluta e inaudita autonomia financeira e,
enfim, durante a segunda Guerra de Castro, General das
Tropas Papais, das quais, em ausência de Camillo Pamphilj,
teve o supremo comando.

Decano dos Clérigos da Câmara, obtém a púrpura como Cardeal
com o título de Sant´Alessio e Legado de Urbino. É nesta
qualidade que receberá com magnificência, em Pesaro, os
embaixadores venezianos e a Rainha Cristina, com quem
manterá relações privilegiadas. segundo Moroni, “quando a
Rainha teve de se ausentar de Roma, por causa da peste,
escolheu Pesaro por residência, e foi tratada magnificamente
pelo Cardeal”.

Durante os trinta e três anos de seu cardinalato (1652-
1685), Omodei participa da eleição de quatro Papas e
desenvolve uma grande atividade, como organizador
intelectual e promotor financeiro da igreja de San Carlo al
Corso, em Roma, à qual associa definitivamente seu nome.

Iniciada em 1612, dois anos após a canonização de S. Carlos
Borromeo, a igreja nasce ao lado do Oratório della
Arciconfraternità di Sant´Ambrogio, herdando-lhe a
importância como difusora da arte lombarda em Roma. Sabemos
pelas pesquisas de G. Drago e L. Salerno (1967), que ela é
consagrada em 1613, e que os trabalhos vinham sendo
dirigidos pelo Cardeal Protetor Camillo Sfondrati, a partir
de um desenho de Onorio Longhi, morto entretanto em 1619.

Após um interregno, mal documentado, Omodei assume a direção
dos trabalhos, como Primicerio dell´ Arciconfraternità, com
uma doação de 50.000 escudos, o que lhe vale a denominação
de Secundus Auctor de S. Carlo. Para o término do
presbitério, tribuna, cúpula e decoração pictórica da
igreja, Omodei instala Pietro da Cortona à frente de uma
equipe de artistas (muitos deles lombardos), entre os quais
estão documentados Pier Francesco Mola, que decora a capela
de San Barnabà (E. Arslan, 1928:63) e Giacinto Brandi, autor
dos afrescos da cúpula, do cupolino, da tribuna e do
teto da nave central (1671-1679).

É provável que em 1669, com a morte de Pietro da Cortona,
Omodei seja levado a assumir diretamente a direção dos
trabalhos, o que explica porque a fachada da igreja (1682)
tenha desenho de sua autoria, e não de Rainaldi ou
Borromini, como se pensava. Sua direção intelectual,
financeira e executiva do canteiro assegurou-lhe uma unidade
de timbre e de concepção, “indicativa, como notou Luigi
Salerno, de um preciso momento no desenvolvimento do gosto
figurativo em Roma”. O mecenato de Omodei anunciar-se-ia, de
resto, precoce, se confirmada a hipótese de ter sido ele a
encomendar uma importante obra a Nicolas Poussin já na
segunda metade dos anos 1620, i.e., aos 20 anos
aproximadamente.

Luiz Marques
15/10/2011

Bibliografia
1955 – F. Zeri, “Due Ritratti del Baciccia”. Paragone, VI,
pp. 53-58
1992 – L. Marques, Pintura Italiana Anterior ao século XIX
em Coleções Brasileiras. São Paulo, pp. 85-8

Artista

GAULLI, Giovanni Battista, chamado Baciccio

Data

1670c.

Local

Rio de Janeiro, Museu Nacional de Belas Artes

Medidas

122 x 97 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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