Pietà com S. Marcos, S. Ambrósio, S. João Evangelista e S. Antonio Abade

A cena da Pietà, não mencionada no Novo Testamento, intercala-se entre a Descida e Deposição da Cruz e o Sepultamento do Cristo.

Embora em muitos aspectos semelhantes, a Pietà e a Lamentação sobre o Cristo Morto diferem em dois aspectos essenciais:

Em primeiro lugar, a Pietà é uma cena sem conexão com o encadeamento temporal do drama. Ela apresenta uma meditação solitária da Virgem sobre o Filho morto. Trata-se de uma cena sem ação, puramente introspectiva e que pressupõe mesmo uma suspensão da ação e de seus tempi. Com exceção de eventuais anjos, não há coadjuvantes neste monólogo mudo da mãe diante do cadáver do filho.

Ao contrário da Pietà, a Lamentação sobre o Cristo Morto, embora não expressamente mencionada no Novo Testamento, insere-se de modo lógico na narrativa do Evangelho e é tradicionalmente composta por personagens que presenciaram a crucificação e, em seguida, retiraram o cadáver de Cristo da cruz: a Virgem, S. João Evangelista, a Madalena, José de Arimateia e Nicodemo.

Em segundo lugar, as duas cenas diferem em caráter. Sendo uma lamentação privada da Virgem, a Pietà não tem lugar na mentalidade cristã antes do século XIV, isto é, antes da emergência de um novo tipo de devoção e de um novo senso propriamente psicológico da culpabilidade e de identificação com o sofrimento de Cristo, sentimentos que anunciam a sensibilidade reformista.

Ao contrário, embora remonte apenas ao século XII, a Lamentação sobre o Cristo Morto (Deprecatio Christi) é uma lamentação pública que mimetiza os ritos fúnebres de pranteamento e deploração diante do cadáver, ritos que homenageiam o falecido e que deitam raízes no mais profundo da cultura mediterrânica antiga e moderna.

Com estas distinções em mente, pode-se bem avaliar a extravagância desta composição, que transgride abertamente as convenções do gênero: uma Pietà em presença de quatro santos, pertencentes, de resto, a períodos históricos diferentes, estranha combinação de Pietà com Sacra Conversação.

Esta rara variante da Pietà não surpreende em um dos mais fascinantes pintores emilianos de seu tempo, Amico Aspertini, nascido em Bolonha em 1474 ou 1475 e morto na mesma cidade em 1552. Roberto Longhi (1934) caracterizou-o melhor que ninguém, ao chamá-lo de Cranach bolonhês. É imperativo recordar por extenso a passagem memorável:

“Desatento hábito mental o de considerar Aspertini como uma bizarria sem alcance efetivo! Pior, que grande erro. A interpretação burlesca, quase sacchetiana de Vasari, que ainda dá o tom aos críticos atuais, é a interpretação de um hábil maneirista que se crê, entretanto, depositário de um particular classicismo, ao menos técnico (Vasari estava mesmo convencido de ter introduzido em Bolonha um vislumbre de civilização), em relação a um maneirista sumamente romântico como Aspertini (…). Mas Aspertini é um verdadeiro pintor (…). E é um autêntico descobridor de terra nova, uma espécie de Filippino, de Cranach bolonhês.”

Além de ser uma das poucas obras seguras de Aspertini, ela é também datada, o que lhe confere o caráter de pedra miliar no percurso pouco documentado do artista. Como bem notou Scaglietti Keleschian (1986), a data 1519 é particularmente significativa, pois “significa uma declaração de independência pessoal. Estes eram os anos imediatamente sucessivos à chegada em Bolonha da Santa Cecília* de Rafael, que estabeleceu a norma para os retábulos”.

Nada aqui, de fato, do decus, do equilíbrio ao mesmo tempo grave e gracioso da Santa Cecília de Rafael, a cuja vista, segundo narra Vasari, Francesco Francia teria morrido, fulminado pela revelação de um novo e inatingível modelo de perfeição. Aspertini reage de outro modo, aprofundando, com esta Pietà, o valor poético da excentricidade.

Luiz Marques
19/01/2011

Bibliografia
1934 – R. Longhi, Momenti della pittura bolognese (1934). Opere complete, volume VI, Florença, Sansoni, 1973, p. 196.
1981 – A. Pinelli, “L´insorgenza anticlassica”. Storia dell´arte italiana, volume VI,I, pp. 106-115.
1986 – D. Scaglietti Keleschian, in V.A., The Age of Correggio and the Carracci. Emilian Painting of the Sixteenth and Seventeenth Centuries. Catálogo da exposição, Washington, New York e Bolonha, p. 59

Artista

ASPERTINI, Amico

Data

1519

Local

Bolonha, San Petronio

Medidas

150 x 250 cm

Técnica

Têmpera sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

613 - Pietà; 806 - Imagens e Ciclos Biográficos de santos; 806AntA - Santo Antônio Abade; 806Ambr - Santo Ambrósio; 687 - S. João Evangelista; 716B - Marcos

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *