Selbstbildnis mit fiedelndem Tod (Autorretrato com a Morte violinista)

Avulta nesses anos uma reflexão de tipo sociológico sobre a
crise do estatuto do artista, reflexão ao mesmo tempo
derrisória e auto-derrisória de sua figura, bem como do
sentido presente e futuro de sua atividade. Uma busca em
MARE sob o código “1111J – Agonia e morte do artista” revela
diversos aspectos de tal reflexão.

Mas ao lado dessa reflexão de tipo sociológico, desenvolve-
se um segundo tipo de meditação que situa as relações entre
o artista e a morte em um registro que se poderia considerar
como propriamente meta-artístico.

Uma obra-chave dessa segunda vertente é o auto-retrato de
Arnold Böcklin (1827-1901) com a morte como violinista que o
consagra no Kunstverein de Munique de 1872.

Como se sabe, sua referência inicial é a cópia do retrato de
Sir Byran Tuke* conservado na Alte Pinakothek de Munique,
então considerada como obra autógrafa de Holbein. Embora
remonte ao tema medieval e tipicamente germânico da
Totentanz, da dança macabra, a associção entre a
música e a morte se reatualizara nas Variações homônimas
para piano e orquestra de Liszt e, sobretudo, no desenho de
Alfred Rethel de 1847-1848, popularizado em uma gravura de
1851 e executado sob o impacto de uma crônica de Heinrich
Heine sobre o surto de cólera de Paris em 1831.

Heine escreve como a morte revela-se subitamente no arlequim
que retira sua máscara em um bal masqué de boulevard
e expõe ao público seu rosto cor de violeta, o rosto da
morte.

No autoretrato de Böcklin, a ostensividade do paralelo entre
som e cor, entre, de um lado, o violino da morte e, de
outro, a paleta e o pincel não deixa dúvidas sobre a
ocorrência de um deslocamento importante na questão das
relações entre o artista e a morte: Böcklin toma de
empréstimo este oxímoro convencional, a associação entre a
vitalidade da música e o calafrio da morte, e aplica-o à
própria paleta em um ut pictura musica que remete
necessariamente à reflexão meta-artística.

A morte não é mais o anseio pela superação no qual o artista
afirma seu programa. A morte é, doravante, o presente da
própria arte, o seu duplo negativo. A associação, não mais
entre o artista e a morte, mas entre a arte e a morte, toma
então de assalto o imaginário da pintura, como se vê também
em um discípulo e “diluidor” de Böcklin como Hans Thoma,
cujo autoretrato de Kalrsruhe de 1875 repete-se em mais de
uma gravura, frisando a mesma questão.

Luiz Marques
23/10/2011

Bibliografia
2008 – L. Marques, “Taunay, superação e morte do artista”.
In, L. M. Schwarcz e E. Dias, Nicolas-Antoine Taunay no
Brasil. Uma leitura dos trópicos. Rio de Janeiro: Sextante
Artes, pp. 204-213

Artista

BÖCKLIN, Arnold

Data

1872

Local

Berlim, Nationalgalerie

Medidas

75 x 61 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Alegorias e Temas Artísticos Morais e Psicológicos

Período

50 - SÉCULO XIX

Index Iconografico

1111 - O Mundo e o Mito do Artista; 1111J - Agonia e morte do
artista, a morte como artista; 1700C3 - Artistas e
Autorretratos

Autor

Luiz Marques

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