A Virtù mantém sob os pés a Inveja e, segurando a Fortuna pelos cabelos, espanca as duas

O afresco que Giorgio Vasari (1511-1574) pinta em sua
própria residência por volta de 1542 cumpre a função
obrigatória de autoglorificação. Mas o tratamento que dá ao
tema decerto não reflete suas concepções sobre as relações
entre Fortuna e Virtù, centrais na reflexão
filosófica e política da primeira metade do século XVI.

A ideia da superioridade da Virtù sobre a Fortuna, adequada
ao primeiro quarto do século XVI, durante o qual havia ainda
margem, ao menos em tese, para a iniciativa política de
parte dos Estados italianos, será invertida, sobretudo, após
o saque de Roma de 1527. Já em 1526, o Triompho de
Fortuna
de Sigismondo Fanti, enfatiza esta inversão, ao
tematizar o futuro como um jogo sobre o qual o homem não tem
nenhum controle, como mostra Baldassare Peruzzi no
frontispício da obra.

Outro desenho, infelizmente perdido, que procura fixar uma
alegoria da Fortuna é de autoria do próprio Vasari, que o
envia a Paolo Giovio anexo a uma carta de 4 de setembro de
1532, com detalhada descrição:

“Fiz um desenho que irá anexo a esta para ser entregue a Sua
Senhoria Reverendíssima [Ippolito de´ Medici], para
reverenciá-la, mais que por outra razão. O capricho da
invenção é de um cavalheiro, meu amigo, que me tem sempre
entretido nesta minha doença. Creio que vos agradará. E para
que Vossa Senhoria e o Cardeal melhor o entendeis, direi
aqui brevemente seu significado:

Esta árvore desenhada ao centro é a árvore da Fortuna,
mostrando pelas raízes que nem todas estão sobre a terra,
nem enterradas. Os ramos intrincados, aqui limpos, ali
nodosos, estão pela Sorte, que com frequência se segue e
muitas vezes na vida se interrompe. Suas folhas, todas
redondas e leves, significam a Volubilidade. Seus frutos,
como vêdes, são mitras de papas, coroas imperiais e régias,
chapéus cardinalícios, mitras de bispos, berretos ducais, de
marqueses e de condes. (…) À sombra dessa árvore estão, em
expectativa, lobos, serpentes, ursos, bois, ovelhas,
raposas, mulas, porcos, gatas, corujas (…) e muitos outros
animais, como podeis ver. Sobre a árvore, a Fortuna, com os
olhos vendados, batendo as frutas com uma vara, as faz cair
sobre a cabeça dos animais. E ora cai o reino papal sobre a
cabeça de um lobo, e ele, com sua natureza, vive e
administra a Igreja.

Da mesma maneira, o Império cabe a uma serpente, que
envenena, destrói e envenena os reinos e desespera seus
povos. A coroa de um rei cai sobre a cabeça de um urso
surtindo efeito consoante à soberba e à fúria sua. Os
chapeus cardinalícios chovem frequentemente sobre os asnos,
que, não cuidando em nenhuma virtude, ignorantemente
vivendo, pastam como asnos e se urtam uns aos outros. As
mitras dos bispos com frequência destinam-se aos bois,
levando-se mais em conta a subserviência e a adulação que as
letras ou quem as mereceria. Caem os berretos ducais, de
marqueses e de condes às raposas, aos grifões, aos leões, de
cujas grras, malícia e soberba não se pode escapar”.

Como se vê, nada pode ser mais antagônico ao presente
afresco da Virtù que espanca a Fortuna e a Inveja que Vasari
pinta em sua casa em Arezzo que sua própria concepção da
onipotência da Fortuna, tal como ele a revela neste desenho
e, reiteradamente, nas Vite. Enquanto o afresco
retoma o motivo maquiaveliano, da Fortuna espancada pela
Virtù, figurada em uma gravura florentina de Marc´Antonio
Raimondi em 1510-1511, impera nos textos do biógrafo o topos
oposto: o da Fortuna virtutem superans dos
Emblemata de Andrea Alciati, com sua plutarquiana
representação do suicído de Brutus, ilustrada na edição de
Augsburgo de 1531 e, mais elaboradamente, na de Lyon, de
1551, aos cuidados de Macé-Bonhomme, sobre os versos:

Caesareo postquam superatus milite vidit
Civili undantem sanguine Pharsaliam
Iamiam stricturus moribunda in pectora ferrum,
Audaci hos Brutus protulit ore sonos:
Infelix virtus et solis provida verbis.
Fortunam in rebus cur sequeris dominam?

(Após ser vencido pelas tropas de César, Brutus viu /
Farsália inundante do sangue dos compatriotas. / Prestes a
afundar o ferro no peito moribundo, exclamou com voz audaz:
Infeliz virtude, prudente apenas nas palavras! Por que
seguirás nos fatos a Senhora Fortuna?)

Longe de comungar da mesma confiança na capacidade humana de
colher ao vôo a ocasião propícia, tematizada por Maquiavel,
a sensibilidade vasariana é mais próxima dos dicta de
Francesco Guicciardini, que escreve na Storia
d´Italia
(II,9):

“Mas é grandíssima (como todos sabem) em todas as ações
humanas o poder da fortuna”.

E nos Ricordi, 30:

“Quem bem considera, não pode negar que nas coisas humanas a
fortuna tem grandíssimo poder (…) e que não está ao
alcance dos homens nem a prever, nem dela se esquivar”.

Luiz Marques
14/10/2011

Artista

VASARI, Giorgio

Data

1542circa

Local

Arezzo, Casa Giorgio Vasari

Medidas

desconhecidas

Técnica

Afresco

Suporte

Pintura

Tema

Alegorias e Temas Artísticos Morais e Psicológicos

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

130 - Divindades Abstratas; 130Fort - Fortuna, Tyché, Kairos,
Occasio, Nêmesis

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *