Camera picta ou Camera degli Sposi

Em 1475, concluída no ano anterior esta que é talvez a mais impressionante gesta pictórica da Itália setentrional no século XV, o embaixador de Milão em Mântua proclama-a la più bella camera del mondo.

Em sua descrição infelizmente sumária destas pinturas na Vida de Mantegna, Giorgio Vasari (1568) admira sobretudo o oculus em trompe-l´oeil no alto da abóbada, espécie de “momento cômico” da decoração de que o artista se vale para exibir sua espetacular ciência da perspectiva:

Nel medesimo luogo sono molte figure che scortano al di sotto in sù, grandemente lodate, perché se bene ebbe il modo del panneggiare crudetto e sottile, e la maniera alquanto secca, vi si vede nondimeno ogni cosa fatta con molto artificio e diligenza

“No mesmo lugar [i.e., perto da Capela do Palácio] há muitas figuras que escorçam de baixo para cima, muito louvadas, pois embora seu modo de pintar os drapeados fosse um tanto cru e linear, e sua maneira algo seca, tudo o que aí se vê é feita com muito artifício e diligência”.

A denominação Camera degli Sposi, pela qual este ambiente é mais conhecido, comparece apenas em 1648 nas Meraviglie dell´arte de Carlo Ridolfi. A denominação é possivelmente equivocada, pois o Marchese Ludovico Gonzaga (1412-1478) devia decerto usá-la como espaço de recepção e de audiências privadas.

Após a morte de Ludovico em 1478, a utilização da Camera picta parece transformar-se. Federico I (1440-1484) e, em seguida, Francesco II (1466-1519) transformam-no em um aposento de custódia de objetos preciosos. Em inícios do século XVII, a Camera detta comunemente del Mantegna perdera já seu prestígio e abrigava os arquivos notariais do marquesado.

Após os graves danos sofridos pela ocupação do Castello di San Giorgio pelas tropas imperiais em 1630, o espaço caiu aos poucos em abandono, tendo-se recuperado apenas entre 1875 e 1987, data de conclusão dos restauros que lhe devolveram, na medida do possível, seu aspecto original

Neste espaço cúbico, conservam-se hoje afrescos em apenas duas paredes, na abóbada e nas doze lunetas, onde Mantega pintou guirlandas com emblemas dos Gonzaga.

Na abóbada, o artista pintou em grisaille oito bustos de imperadores romanos – Júlio César e seus sete primeiros sucessores – inscritos em circunferências (clipei), imitando relevos em estuque (finto rilievo).

Além disso, como acima afirmado, seu centro representa um oculus*, isto é, uma falsa abertura para o céu pintada em trompe l´oeil, “truque” excepcional de perspectiva para criar um espaço ilusório, talvez alusivo ao Pantheon de Roma.

As três figuras femininas que se debruçam do alto deste tão célebre quanto enigmático trompe l´oeil foram parcialmente restauradas pelo filho do artista, Francesco Mantegna, em 1506, quando de uma projetada estada de Júlio II em Mântua.

Diversas interrupções a que, como artista de corte, Andrea Mantegna (1431c.-1506) vê-se obrigado, explicam porque a decoração prolonga-se por quase dez anos.

Isto posto, pintura e arquitetura, espaço e “programa” iconográfico entrelaçam-se aqui com tal unidade de concepção que se pode considerar a Camera degli Sposi o grande precedente histórico das grandes empresas pictóricas sucessivas, de Michelangelo, Rafael, Giulio Romano e Correggio ao barroco romano.

Esta unidade primordial reforça a suposição de que Mantegna tenha formulado ele próprio, ao menos em suas linhas gerais, a complexa inventio desta decoração, em que se fundem na celebração retratística o mais estrito hieratismo áulico, a narrativa histórica e o senso do detalhe anedótico e do private joke, o todo profundamente nutrido de paralelismos com o Império romano.

Luiz Marques
04/02/2011

Bibliografia:
1959 – L. Coletti, E. Camesasca, La Camera degli Sposi del Mantegna a Mantova. Milão.
1967 – N. Garavaglia, L´Opera completa del Mantegna. Milão, Rizzoli, pp. 100-108
1986 – R. Lightbown, Mantegna, Londres
2008 – G. Agosti, “Mantegna 2046”, in G. Agosti, D. Thiébaut, Mantegna 1431-1506. Catálogo da exposição, Paris, Louvre. Milão, Oficina Libraria, pp. 40-42.
2008 – M. Tanzi, “A Mantova: Gli Anni Sessanta e Settanta”, in G. Agosti, D. Thiébaut, Mantegna 1431-1506. Catálogo da exposição, Paris, Louvre. Milão, Oficina Libraria, pp. 177-186.

Artista

MANTEGNA, Andrea

Data

1465- 1474c.

Local

Mântua, Palazzo Ducale, Camera degli Sposi

Medidas

805 x 807 cm (parede note, ao fundo)

Técnica

afresco, têmpera e óleo

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos contemporâneos;
1380 - A Residência e a Família Aristocrática

Autor

Luiz Marques

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