Índio Tupi

“O Índio Tupi também era conhecido como Homem Brasileiro. Com semblante sério, olhar vago e cabelos aparados na altura das orelhas, ele se apresenta com o corpo em diagonal e o rosto voltado para o espectador.

O índio Tupi apresenta índices de aculturação: usa bigode e um pouco de pelos no queixo, um calção e uma faca com cabo de madeira européia, sinalizando um provável escambo entre nativos e europeus. Nas mãos, segura armamento tipicamente indígena: não direita, uma grande flecha apontando para baixo; na esquerda, quatro flechas com adornos de penas nas extremidades e um arco propulsor. Trata-se provavelmente de uma espécie de guerreiro ou caçador de sua tribo, atividades evidenciadas pelos utensílios que carrega.

Albert Eckhout (1610-1666) constrói um corpo robusto, matizado com cores quentes e terrosas. A mandioca partida ao meio que figura no canto inferior direito da tela terá sido cortada pela faca do tupi. Há também dois caranguejos na parte inferior, próximos, que em conjunto com a mandioca representam alimentos por excelência da comunidade indígena.
Atesta-o a plantação de mandioca à direita, onde se pode observar também seu replantio com estacas fincadas num monte de terra fofa.

Ao fundo, observa-se um rio onde várias atividades acontecem. No canto esquerdo, há um grupo de índias. Algumas tomam banho no rio, outras lavam roupas. Seguindo seu curso, ladeado por densa mata ciliar, vê-se um barco com três figuras, provavelmente um nativo remador e dois europeus.
Mais ao fundo do leito, temos outra embarcação com vela em direção a uma construção às margens do rio.

Desse modo, Eckhout evidencia nessa tela uma espécie de divisão social do trabalho, principalmente entre os índios tupis, na qual aos homens caberiam atividades de caça e defesa e às mulheres, atividades de cunho doméstico. Além disso, mostra a importância do rio para as atividades cotidianas de nativos e europeus.

A paisagem apresenta um céu alto, tipicamente holandês, nebuloso com densas nuvens de um cinza arroxeado. No entanto, há uma grande luminosidade, reforçada pelo branco do calção do índio, ponto central da composição. A partir dele, todos os outros elementos da tela ao seu redor ganham luz, contrastando com as áreas de sombra nos vegetais e até mesmo com o negrume dos caranguejos.

Eckhout comprova sua meticulosidade nos mínimos detalhes que representa em sua tela, desde os reflexos luminosos no dorso do caranguejo até as índias banhando-se no rio ou a casa situada às margens dele. Isso demonstra sua filiação à tradição holandesa em pintura, fortemente descritiva, de maneira a englobar não só os objetos mas o entorno em geral, como se ao representá-los em seus mínimos detalhes e meandros, o pintor os dominasse e conhecesse em sua plenitude.

Richard Santiago
18/05/2011

Bibliografia
1990 – C. do P. Valladares, L. E. de Mello Filho. Albert Eckhout – A presença da Holanda no Brasil, século XVII. Rio de Janeiro: Edições Alumbramento.
2002 – E. van den Boogaart. “”A População do Brasil Holandês retratada por Albert Eckhout, 1641-1643″”. In ECKHOUT volta ao Brasil 1644-2002. Nationalmuseet, Copenhagen, Denmark.
2002 – P. Mason. “”Oito Grandes Quadros com Pessoas das Índias Orientais e Ocidentais. A Montagem Maravilhosa de Albert Eckhout””. In ECKHOUT volta ao Brasil 1644-2002. Nationalmuseet, Copenhagen, Denmark.

Artista

ECKHOUT, Albert

Data

1643

Local

Copenhagen, Museu Nacional da Dinamarca

Medidas

269 x 170 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Ciência Ilustração científica e Etnografia

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

1210 - Representações Etnográficas; 1210Ind - Indígenas e outras etnias americanas

Autor

Luiz Marques

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