O artista desesperado diante da grandeza das ruínas antigas

O desenho traz a inscrição “S.P.Q.R.” e a falsa assinatura:
“85 W. Blake”.

Adquirido pela Kunsthaus de Zurich em 1940, Der Künstler
verzweifelnd vor der Grösse der antiken Trümmer
(O
artista desesperado diante da grandeza das ruínas antigas)
de Johann Heinrich Füssli (1741-1825) é talvez seu mais
conhecido desenho.

Ele mostra o artista sentado com a cabeça apoiada na mão
esquerda, fórmula do estado de espírito ou do temperamento
melancólico, enquanto a outra mão pousa sobre um gigantesco
pé, um fragmento da estátua colossal do Imperador
Constantino I (312-337), conservado nos Musei Capitolini em
Roma.

O sentido da obra é ambíguo. De um lado, Füssli exprime
aqui, talvez pela primeira vez na história da arte, a idéia
de que o legado da Antiguidade é de uma grandeza esmagadora.
Antes que inspirar e estimular o artista de seu tempo, antes
de ser portanto auto-afirmativa, a emulação com a grandeza
antiga em que se engaja o artista moderno seria auto-
depreciativa, denunciaria sua brutal inferioridade e o
reduziria a uma sorte de impotência criativa.

Esta constatação de fracasso e a atmosfera de irrealidade da
cena empresta-lhe o caráter de um sonho, aproximando-a da
mais célebre criação de Füssli, Nightmare*,
(Pesadelo), cuja primeira versão nasce justamente em 1781.

Tal acepção primeira e mais evidente da obra comporta,
ademais, como já notado por Federico Zeri, um espirituoso
jogo de palavras, pois o contraste entre a grandeza antiga e
a pequenez moderna é sublinhado pelo contraste entre o pé
imenso do colosso e o fato de que Füssli significa em
alemão, “pezinho”.

Por outro lado, o desenho admite uma segunda interpretação
que, sem negar a primeira, sugere-lhe um sentido
complementar e talvez algo diverso. Para dele se dar conta
plenamente, é preciso manter em mente que o desenho data de
1778 – 1780, justamente os anos do retorno de Füssli a
Zurich, após oito anos de estada quase contínua em Roma,
experiência decisiva para a superação do ideário clássico
mais estrito de Winckelmann e de Mengs que havia previamente
moldado as concepções históricas e estéticas do artista
suiço.

Sob o impacto da escala ciclópica das ruínas romanas e dos
afrescos e esculturas de Michelangelo, menos apreciados pelo
gosto neoclássico, Füssli parece desenvolver um sentimento
do antigo dominado não apenas por sua superioridade, mas
também por sua irremediável destruição pelo tempo, o qual
reduz impiedosamente o Antigo e o Moderno a um mesmo estado
de precariedade e inefetividade. Pois é inegável o caráter
quase irreconhecível, e mesmo quase grotesco, da ruína a que
o tempo reduziu o Colosso de Constantino.

Neste sentido, ao lado de sua advertência sobre a vanidade
da emulação com o antigo, isto é, sobre a inelutável
inferioridade do artista moderno em relação ao antigo, o
desenho sugere também a angústia da inanidade – comum ao
Antigo e ao Moderno -, de toda esperança de permanência da
criação artística.

Luiz Marques
08/11/2011

Bibliografia:
1977 – G. Schiff, P. Viotto, L´opera completa di Füssli,
Milão, D35, p. 112.
1995 – W. Hoffmann, Une époque en rupture: 1750-1830. Paris,
tradução italiana, p. 649.
1998 – F. Zeri, Fuseli. Titania and Bottom with the Head of
an Ass (baseado nas entrevistas de Zeri com Marco Dolcetta,
Milão: RCS Libri, 1998). Ontario (Canadá), 2000, p. 44.

Artista

FÜSSLI, Johann Heinrich

Data

1778/ 1780

Local

Zurich, Kunsthaus

Medidas

420 x 272 mm

Técnica

sanguina e sépia

Suporte

Pintura

Tema

Alegorias e Temas Artísticos Morais e Psicológicos

Período

SÉCULO XVIII

Index Iconografico

1111 - O Mundo e o Mito do Artista; 1111C - O artista, seus
modelos e suas musas

Autor

Luiz Marques

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