Amor virtuoso punindo Amor ferino

O prevalecer da fortuna adversa sobre a virtù no
pensamento de Francesco Guicciardini e Francisco de Holanda,
bem como nos artistas florentinos de meados do século – tais
como Giorgio Vasari e Cecchino Salviati -, reflete os
reveses que se sucedem então na península itálica.

O fenômeno ecoa também a voga européia do neoestoicismo a
partir de meados do século, anos de popularização de Sêneca,
da viagem à Itália de Marc-Antoine Muret (1554) e de Justus
Lipsius (1567). Máximas estóicas como Ducunt volentem
fata, nolentem trahunt
(o destino guia os que a ele se
curvam e arrasta os que se lhe opõem) vêm consagrar essa
inflexão epocal na relação Virtù – Fortuna, ocorrida
na Itália do segundo quarto do século XVI.

A nova situação histórica permite entender a absorção da
imagem da luta entre a Virtù e a Fortuna por imagens
de longínqua ressonância neoplatônica, e que se condensam no
tema do Amor Virtuoso castigando o Amor ferino.

Até onde é possível deduzir da documentação conhecida, essa
metamorfose manifesta-se em primeiro lugar no mundo ibérico,
justamente neste desenho preparatório para uma perdida
pintura do pintor espanhol Francisco Venegas. Aqui, é ainda
evidente a memória da água-forte de Marc´Antonio Raimondi
sobre a Virtù espancando a Fortuna*, de maquiaveliana
memória –

vide: http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=3472

– mas não apenas a figura feminina perdeu qualquer atributo
da Fortuna, como o objeto com que é castigada é um peixe.

Trata-se com toda a probabilidade, tal como narra Ovídio
(Met., V, 331), da própria Vênus, que se metamorfoseia em
peixe para escapar da fúria do gigante Tifeu: “Pisce Venus
latuit”. A lascívia é assim, como de hábito na iconografia
medieval do Inferno, castigada por seu próprio vício.

Aparentemente, não existem representações do mito de Tifeu
na pintura italiana dos séculos XV e XVI, mas ele devia ser
moeda corrente na cultura ibérica da segunda metade do
século XVI, pois nos Lusíadas (I,42), Camões a ele
alude para caracterizar Vênus e Cupido:

… e o Sol ardente
Queimava então os Deuses que Tifeu
Co temor grande em peixes converteu

O desenho documentaria, em todo o caso, uma transição, rica
de conotações ideológicas, para o tema do Amor divino
castigando Cupido, muito afortunado em torno de 1590-1610,
graças a Caravaggio e a Baglione, os quais, como se sabe,
enfrentam-se em um processo justamente em torno dele.

Luiz Marques
01/04/2010

Artista

VENEGAS, Francisco

Data

1580c.

Local

Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga

Medidas

145 x 193 mm

Técnica

Pena

Suporte

Pintura

Tema

Alegorias e Temas Artísticos Morais e Psicológicos

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1102Amo - Amor sagrado, amor profano; 12Ven - Afrodite Vênus

Autor

Luiz Marques

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