Retrato de Robert Dundas, Lord Arniston

No canto inferior esquerdo, lê-se a inscrição:

This Picture Was in Aug. 1787 Drawn / For John Davidson Writer to the Signet / And Was in Dec. Thereafter Presented by him to the [?] Lord Avocate.

Robert Dundas, Lord Arniston, nascido em 1713, morre em 1788, alguns meses apenas depois da execução deste retrato. Após estudos em Edimburgo e em Utrecht, é admitido como advogado em 1738. Indicado Solicitor General em 1742, entra no Parlamento por Midlothian em 1754, tornando-se Lord Advocate alguns meses depois. Raeburn viria, mais tarde, a retratar seu filho, Francis, jogando xadrez com a esposa (a obra conserva-se igualmente em posse de seus descendentes, em Armiston House).

O retrato de Robert Dundas ocupa uma posição-chave na carreira de Henry Raeburn (1756-1823), para a compreensão da qual é preciso uma rápido excurso biográfico. Crescido em meio a dificuldades financeiras e familiares – seu pai é objeto de recorrentes acusações de inadimplência que chegam a levá-lo à prisão -, Raeburn recebe um primeiro treinamento como ourives.

Seus inícios na pintura são mediados por um contato com David Martin, discípulo do outro mestre escocês da retratística do século XVIII, Allan Ramsay (1713-1784), enquanto o mundo da gravura chega-lhe através de David Deuchar, um especialista também em miniaturas.

Aos 29 anos, Raeburn, pintor já formado, decide ser chegado o momento do Grand Tour. Em Roma, em 1785, ele frequenta seu compatriota, o pintor, arqueólogo e antiquário Gavin Hamilton (1723-1798), em Roma desde 1748, tornando-se uma personagem de destaque na crônica do nascente neoclassicismo.

Em 1787, encontra-se ele de qualquer modo já estabelecido em Edimburgo como retratista, após um interlúdio londrino, e é exatamente este retrato de Robert Dundas, Lord Arniston – uma das mais impressionantes orquestrações monocromáticas da história da pintura – que estabelece de uma vez por todas sua reputação de retratista em sua cidade.

Proclamado Miniaturista da Rainha na Escócia, o artista exporá regularmente desde 1792 na Royal Academy de Londres, não sem acusar eventuais influências do legado colorístico de Reynolds, morto exatamente naquele ano.

Durante os 30 anos subsequentes, malgrado uma bancarrota em 1808, a liderança do genial retratista de Walter Scott na sociedade escocesa manter-se-á inalterada.

A retratística de Raeburn elaborou valores poéticos dentre os mais intensos da pintura britânica do Setecentos, não isentos, como sublinhado pelos estudiosos, de possíveis conexões com as teorias da percepção dos filósofos escoceses de seu tempo.

Nas palavras de Duncan Thomson (1997, p. 24):

a major aspect of Raeburn´s ability to grasp the essence of what, by its nature, was always changing, was his seemingly intuitive control of tonal relationships. A shadow, for example, would always be correctly modulated against a different dark or against a white. No contemporary could do this with such certainty, and, taking a wider perspective, it places Raeburn in some ways in the company of painters like Velázquez and Manet.

“um aspecto maior da habilidade de Raeburn para captar a essência do que, por sua natureza, era sempre cambiante, era seu controle, aparentemente intuitivo das relações tonais. Uma sombra, por exemplo, seria sempre corretamente modulada contra outra cor escura ou contra um branco. Nenhum contemporâneo podia fazer isso com tal segurança, o que, visto numa perspectiva mais ampla, coloca Raeburn em alguns aspectos em companhia de pintores como Velázquez e Manet”.

Na esplêndida veste do retratado, as formas organizam-se com ritmo, lógica e coerência de claro-escuro, não pelo recurso ao desenho, mas graças à simples combinação de duas tonalidades de vermelho, algo de que se pode ter uma ideia ampliando-se ao máximo a imagem e que bem demonstra a legitimidades da equiparação proposta por Thomson.

Luiz Marques
04/01/2011

Bibliografia:
1997 – D. Thomson, Raeburn. The Art of Sir Henry Raeburn. 1756-1823. Catálogo da exposição. Edimburgh, Scottish National Portrait Gallery, p. 55.

Artista

RAEBURN, Henry

Data

1787

Local

Arniston House, Mrs. Althea Dundas-Bekker

Medidas

121,5 x 102,5 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

SÉCULO XVIII

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos Contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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