Hércules

Na Vida de Michelangelo, Giorgio Vasari (1568) escreve:

“Morto o Magnífico Lorenzo, Michelangelo voltou à casa do pai com infinito luto pela morte de um homem tão amigo de todas as virtudes. Comprou então um grande bloco de mármore e escavou-lhe um Hércules de quatro braças, que por muitos anos esteve no palácio dos Strozzi, apreciado como algo admirável. Depois, no ano do assédio [1530], foi enviado à França, ao rei Francisco, por Giovambattista della Palla”.

Em Ascanio Condivi (1553) pode-se ler algumas precisões a respeito dessa escultura. Tendo retornado à casa do pai em luto pela morte de Lorenzo, Michelangelo:

“tendo-se entrementes recuperado, e comprado um grande bloco de mármore por muitos anos em contato com a água e o vento, dele extraiu um Hércules de quatro braças de altura, mais tarde enviado à França”.

De fato, na busca de fundos ou na vã esperança de grangear a intervenção de Francisco I, a República de Florença, cada vez mais isolada e ameaçada pelo assédio das tropas imperiais e pontificais, ofertara (ou vendera) a obra, de grandes dimensões (quatro braccia = 233 cm.), ao rei da França.

Esculpido por Michelangelo em 1492, data da morte de Lorenzo, o mármore passou em 1506 para as mãos dos irmãos Filippo e Lorenzo Strozzi, conforme atesta uma carta de Lorenzo Strozzi, escrita de Veneza a Buonarroto, irmão do artista, de 20 de junho desse ano. A primeira parte da construção de seu majestoso palácio acabava então de ser concluída e o Hércules vinha se juntar a uma coleção de esculturas que se contava entre as mais prestigiosas de Florençca e que devia incluir diversas obras antigas.

De Florença, em 1529, através de Agostino Dini, agente de Filippo Strozzi, o Hércules passou para as mãos de Giovanni Battista della Palla (1489-1532), que, na qualidade de agente de Francisco I, enviou a estátua a Paris.

Em 1594, Henrique IV expõe o Hércules no novo Jardin de l´Estang em Fontainebleau, onde o menciona o Père Dan em seu Trésor des Merveilles de la maison royale de Fontainebleau, Paris, 1642, livro II, cap. XX, p. 177. Este jardim foi destruído em 1713 e a obra, desde então, dada por perdida.

Em 1969, Alesandro Parronchi [1975:II,35-60] propõe que se reconheça o original de Michelangelo em uma estupenda escultura, conservada em coleção privada florentina, que ele pôde publicar apenas a partir do estudo de suas fotos.

A julgar pelas fotografias, trata-se de uma obra efetivamente de excepcional qualidade e a atribuição de Parronchi, a se confirmar, significaria a mais notável contribuição ao conhecimento da obra juvenil de Michelangelo.

O autor associa este Hércules ao relevo da Centauromaquia*, e propõe que este célebre relevo destinava-se a decorar o pedestal da estátua.

Além de sugerir a possibilidade de que a escultura pertence a um período ainda anterior à morte de Lorenzo il Magnifico (1492), a hipótese de Parronchi reforça a idéia de que o relevo da Casa Buonarroti teria por protagonista Hércules e não Teseu.

Luiz Marques
12/01/2011

Bibliografia
1975 – A. Parronchi, Opere giovanili di Michelangelo. 5 volumes, Florença: Olschki. Vol. II: Il Paragone con l´antico, pp. 35-60.

Artista

Michelangelo Buonarroti (atribuído a)

Data

1492c.

Local

Florença, Coleção Privada

Medidas

desconhecidas

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

70 - Hércules e seu ciclo

Autor

Luiz Marques

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