Sepultamento de Cristo

Registro inventarial: NG 790

O sepultamento do Cristo é narrado nos quatro Evangelhos,
mas apenas João (19,38) refere-se às personagens que dele
participam:

“Depois, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, mas
secretamente, por medo dos judeus, pediu a Pilatos que lhe
permitisse retirar o corpo de Jesus. Pilatos o permitiu.
Vieram, então, e retiraram o corpo. Nicodemos, aquele que
anteriormente procurara Jesus à noite, também veio, trazendo
cerca de cem libras de uma mistura de mirra e aloés. Eles
tomaram o corpo de Jesus e o envolveram em panos de linho
com aromas, como os judeus costumam sepultar. Havia um
jardim no lugar onde ele fora crucificado e, no jardim, um
sepulcro novo, no qual ninguém ainda fora colocado. Aí,
então, por causa do dia da preparação dos judeus e porque o
sepulcro estava perto, eles depositaram Jesus” (Bíblia de
Jerusalém).

Não é clara a identificação das figuras mencionadas por João
e ainda menos a de outras eventualmente presentes na
iconografia do sepultamento. Nesta têmpera inacabada
atribuída a Michelangelo, a figura calva ao centro
corresponderia à tipologia de Nicodemos, enquanto a
personagem fortemente andrógina em vermelho à esquerda
poderia ser entendida como José de Arimateia, embora seu
aspecto o aproxime mais da tipologia de João Evangelista.

A identificação das três figuras femininas é ainda mais
problemática. A personagem ajoelhada, que deveria meditar
sobre uma coroa de espinhos, poderia ser identificada, como
se verá, com Madalena.

Segundo um documento publicado por Mancusi-Ungaro em 1971,
durante os últimos meses de sua primeira estada em Roma
(1496-1501), Michelangelo recebera pagamento parcial por um
quadro de altar para a igreja romana de S. Agostino. Para a
autora e outros (Hibbard, Hirst, Agosti e Joannides), tal
quadro seria este inacabado Sepultamento do Cristo, não
mencionado pelas fontes, mas provavelmente destinado ao
altar da capela do bispo de Crotona, Giovanni Ebu, morto em
1496.

A obra foi atribuída a Michelangelo desde o século XIX por
estudiosos como Wornum [1869] e Mantz [1876:135]. Este
último o data dos mesmos anos do Tondo Doni. Um desenho
representando uma jovem nua de joelhos, no Louvre, atribuído
por um número considerável de estudiosos a Michelangelo,
reforça a atribuição, já que se trataria de um estudo para a
Maria Madalena ajoelhada, à esquerda da composição.

A autografia do desenho é recusada por Berenson [1938:
n.1742] e Beck [1996:181], entre outros, em favor de Piero
d´Argenta ou Agnolo ou Donino di Domenico del Mazziere
(Monbeig-Goguel [1994:116]), enquanto são mais numerosos os
que o consideram autógrafo, dentre os quais Thode [1908:II,
405], Tolnay [1975:I,n.31], Hirst [1988/1993:9], Agosti
[1992:25] e Joannides [2003:61].

Smart [1967:851] e Gould [1975:145 50], entre outros, datam
o “Sepultamento” de um momento sucessivo a 1506, dadas suas
alegadas relações com o “Laocoonte”*, exumado naquele ano em
Roma.

Ver:http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=3645

Agosti, Farinella [1987:13-14] criticam esta dependência e o
documento publicado por Mancusi-Ungaro implicaria um recuo
da datação para 1500-1501, proposta reforçada pelo desenho
do Louvre, datável de 1500c.

De resto, o estilo do jovem Michelangelo é, avant la
lettre
, aderente ao do “Laocoonte”, como demonstra o
impacto tangível sobre a “Centauromaquia” (1492) dos “Três
Faunos”, uma escultura antiga descoberta em Roma em 1489,
com características estilísticas semelhantes às do
Laocoonte.

Ver: http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=2959

Segundo Butterfield [1989:390], outra fonte da composição do
quadro londrino seria o sarcófago no Camposanto de Pisa.

Seja como for, parece impossível recusar a Michelangelo ao
menos a figura de vermelho, dada sua inconfundível
monumentalidade e potência plástica.

Luiz Marques
04/04/2012

Bibliografia:
1876 – P. Mantz, “Michel Ange peintre”. Gazette des Beaux-
Arts, I, 13, pp. 119-186.
1971 – H.R. Mancusi Ungaro, Michelangelo, the Bruges
Madonna and the Piccolomini altar. New Haven e Londres: Yale
Univ. Press.
1974 – H. Hibbard, Michelangelo. New York, Evanston, San
Francisco, Londres: Harper
1994 – M. Hirst, J. Dunkerton, Making and Meaning. The Young
Michelangelo. Catálogo da exposição. Londres: National
Gallery.
1994 – C. Monbeig Goguel, “A propos des dessins du Maître de
la femme voilée assise du Louvre. Réflexion méthodologique
en faveur du Maître de Santo Spirito (Agnolo et/ou Donnino
di Domenico del Mazziere?)”, in E. Cropper (ed.), Florentine
Drawings at the Time of Lorenzo the Magnificent. Bolonha,
pp. 116-119.
2003 – P. Joannides, Musée di Louvre. Inventaire Général des
Dessins Italiens, VI: Michel-Ange. Élèves et Copistes. Com
a colaboração de V. Goarin e C. Scheck. Paris: RMN, pp. 61-
65.
2011 – G. Vasari, Vida de Michelangelo, tradução e
comentário de L. Marques, Campinas: Editora da Unicamp, pp.
283-284.

Artista

Michelangelo Buonarroti

Data

1500/ 1501

Local

Londres, National Gallery

Medidas

162 x 150 cm

Técnica

Têmpera sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

616 - Sepultamento de Cristo

Autor

Luiz Marques

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