Laocoonte e seus filhos (imagem 3)

“(continuação do comentário da imagem 2:
http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=3646)

Ao passo de Plínio citado no comentário à imagem 2 fazia
eco Giuliano da Sangallo, segundo o que reporta, muitos anos
depois, seu filho, Francesco da Sangallo, em uma carta a
Vincenzio Borghini datada de 28 de fevereiro de 1567, na
qual supostamente se recorda da descoberta da escultura
feita por certo Felice de Fredis:

Io era di pochi anni la prima uolta ch´io fui a Roma, che
fu detto al Papa che in una vigna presso a Santa Maria
Maggiore s´era trouato certe Statue molto belle; el Papa
comandò a un palafreniere, “”va et di”” a´ Giuliano da S.
Gallo che subito la uadia a uedere,”” et così subito s´andò;

et per che Michelangelo Bonarroti si trouaua continuamente
in casa, che mio Padre l´haueua fatto uenire, et gli haueua
allogata le Sepoltura del P(a)P(a); et uolle che ancor Lui
andasse, ed io così in groppa a mio Padre, et andamo; et
scesi doue erano le Statue, subito mio Padre disse: “”questa
e´ Hilaoconte che fa mentione Plinio””; et si fece crescere
la buca, per poterlo tirar fuora, et uisto, ci tornamo a
desinare, et sempre si ragionò d(e)lle cose Antiche,
discorrendo anc(or)a di quelle di Fior(en)za
.

“”Era eu criança de poucos anos quando fui pela primeira vez
a Roma. Foi então dito ao Papa [Júlio II] que em um vinhedo
[vigna) perto de Santa Maria Maggiore haviam-se
encontrado certas estátuas muito belas. O Papa ordenou a um
guarda, ´vai e diz a Giuliano da Sangallo que vá vê-las
imediatamente´, e assim se fez.

E porque Michelangelo Buonarroti estava sempre em casa, pois
meu pai o havia feito vir a Roma e lhe havia encomendado o
sepulcro do Papa, quis que também ele lá fosse e eu também
nos ombros do meu pai. E lá fomos. E descidos onde estavam
as estátuas, meu pai imediatamente disse: ´este é o
Laocoonte mencionado por Plínio´. E se fez aumentar o buraco
para poder tirá-lo dali, e visto, voltamos para almoçar, e
sempre se conversou sobre as coisas Antigas, inclusive das
de Florença””.

Por sua qualidade excepcional, por suas dimensões
monumentais, por seu muito bom estado de conservação e,
ainda, por sua identificação com a notável passagem de
Plínio acima citada, na qual o polígrafo proclamava seus
“”sumos artistas””, a proeza de ser executada ex uno
lapide
e de se conservar no palácio do Imperador, a
descoberta desse grupo marca um ponto de inflexão na
história da arte da Idade Moderna.

Ao lado e mais ainda talvez que o “”Apolo do Belvedere””, o
“”Torso do Belvedere””, a Venus felix, a “”Ariadne”” (ou
Cleópatra), o “”Hércules Farnese”” e o “”Touro Farnese””,
emblemas maiores da escultura monumental antiga, cultuados
pela Idade moderna e descobertos todos entre 1489 (Apolo) e
meados do século XVI, o Laocoonte será considerado o modelo
por excelência da plástica antiga a ser imitado pelos
artistas modernos.

A dimensão não apenas artística, mas igualmente política, de
sua descoberta reside no fato de se tornar o símbolo da
renovada grandeza da Roma neo-imperial do papa Giuliano
Della Rovere, que adotara o nome Júlio II em manifesta
referência a Júlio César, primeiro imperador.

Já o tema do Laocoonte bem se prestava a esta operação
ideológica, pois seu sacrifício às portas de Troia, às
vésperas de sua destruição pelos gregos, fora propiciatório
da fuga de Eneias e de seu filho, Iulos (fundador da gens
Iulia, de que descendia Júlio César e, por extensão,
simbolicamente, Júlio II), fuga que redundaria em última
instância, como cantado na Eneida de Virgílio, na fundação
de Roma.

Não por acaso, os numerosos poemas suscitados pela escultura
desde o primeiro momento de sua descoberta frisavam sua
condição de elo tangível entre a Roma mítica de Eneias,
destinada à grandeza universal que Anquise anunciara no
canto VI da Eneida, e a Roma cristã, que, rediviva,
reencontrava seu centralidade universal sob o
imperium de Júlio II, novo Pontifex Maximus.

Assim, por exemplo, ecoando o dictum de Plínio,
Jacopo Sadoleto (1477-1547) a canta em seu De Laocoontis
statua carmen
, poema encomendado por Júlio II e a ele
dedicado:

Divinae simulacrum artis, nec docta vetustas
Nobilius spectabat opus, nunc celsa revisit
Exemptum tenebris redivivae moenia Romae

 
(Estátua de divina arte, a sapiência antiga não conhecia
mais nobre obra; agora, arrebatada das trevas, revê as
muralhas de Roma rediviva)

(continua no comentário à imagem 4 do Laocoonte)”

Artista

Agesandro, Atanadoro e Polidoro

Data

-40/ 20 a.C. ou 14 / 37 d.C.

Local

Vaticano, Museo Pio Clementino

Medidas

242 cm de altura

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

ARTE GRECO-ROMANA

Index Iconografico

84 - Eneida; 84laoc - Laocoonte II.199-231

Autor

Luiz Marques

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