Aclamação de Amador Bueno

“O antigo mosteiro de São Bento em São Paulo serve de cenário
para a cena imaginada por Oscar Pereira da Silva (1865/1867-
1939) . Circundado por monges beneditinos e secundado pela
figura de um bispo, Amador Bueno Ribeira levanta o braço
pedindo calma aos homens que o aclamam, espada em punho, rei
de São Paulo. Ele declinaria de tal aclamação, devendo se
refugiar no mosteiro para se proteger das hostilidades que
sua recusa suscita.

As “”Memórias para a história da capitania de São Vicente”” de
frei Gaspar da Madre de Deus (1715-1800) são a fonte
principal deste evento de contornos imprecisos. Com o fim do
domínio espanhol sobre Portugal em 1640 e a aclamação do
Duque de Bragança como Dom João IV, os fazendeiros e
comerciantes paulistas tentam separar-se da colônia e
declarar uma própria independência.

Os revoltosos viam no retorno ao domínio português uma
ameaça ao próspero contrabando com a região hispânica do Rio
da Prata, voltado em especial para o apresamento e
escravização de índios das Missões Jesuíticas, já que Lisboa
tinha particular interesse no lucrativo tráfico negreiro. Um
soldado com elmo espanhol no canto direito da composição
enfatiza os vínculos dos secessionistas com a antiga
metrópole.

Os espanhóis e paulistas ligados aos interesses das
expedições de escravização indígena, capitaneadas pelos
bandeirantes, organizavam-se em uma facção liderada, segundo
Afonso d´Escragnolle Taunay, pelos irmãos Juan e Francisco
Rendón de Quevedo y Luna. Elegeram então como rei de São
Paulo Amador Bueno Ribeira (morto em 1649), também ele
espanhol, pois nascido em Sevilha, mas pertencente por parte
de mãe à família portuguesa dos Pires.

Irmão de um bandeirante, ele próprio no passado um
bandeirante, além de capitão-mor e ouvidor, Amador Bueno era
proprietário de uma grande fazenda de trigo movida por
escravos guaranis e, portanto, propenso a se posicionar
contra o novo domínio português. Frequentemente entendida
como um ato pusilânime, as razões de sua recusa permanecem
obscuras.

Ao termo de aclamação, em 1 de Abril de 1641, subscreveram
D. Francisco de Lemos, da cidade de Orens, D. Gabriel Ponce
de León, de Guaira; D. Bartolomeu de Torales, de Vila Rica
do Paraguai, D. André de Zunega e seu irmão D. Bartolomeu de
Contreras y Torales, D. João de Espíndola e Gusmão, da
província do Paraguai.

Proclamação e recusa fornecem o ponto de partida de
narrativas que delas se apropriam ao sabor das
circunstâncias e posicionamentos ideológicos. Em 1823,
comentando a recente declaração de independência da colônia,
D. Pedro I afirma: “”Foi na pátria do fidelíssimo, e nunca
assaz louvado Amador Bueno de Ribeira, onde pela primeira
vez fui aclamado Imperador”” (apud Bentes Monteiro,
2007).

Em 1858, Francisco Adolfo de Varnhagen, visconde de Porto
Seguro (1816-1878), consagra-lhe um drama, intitulado
“”Amador Bueno, ou a Coroa do Brasil em 1641″”. Dedicada a D.
Pedro II, a peça tinha por evidente propósito o elogio à
Casa de Bragança e à instituição da monarquia, como bem o
demonstra o seguinte discurso de Amador Bueno:

“”Sim, mas no fim das contas, a coroa na minha cabeça não
poderia dar a paz e a felicidade! Um trono há mister bases
sólidas sobre que assente, e uma coroa só pode servir na
cabeça que já para ela nasceu formada. Os reis são na terra
uma família à parte de nós; reinam não só pelo esplendor que
herdaram de seus maiores, mas também pelo da sua família, –
dos mais reis, que todos eles se protegem como parentes que
são entre si. E são invioláveis e sagrados por Deus! Estão
acima de todos os partidos; pairam noutra atmosfera mais
livre de ambições e de paixões más do que a nossa, e não se
podem criar ficando os seus parentes peões [.] Não nos é
dado a nós igualar o que Deus desigualou. Poderiam jamais
quaisquer leis terrestres igualar o tigre à inofensiva
cotia? Ou a rolinha que geme ao milhafre que a arrebata? [.]
Que proclame a igualdade na terra a cobra cascavel para mais
à vontade administrar a sua peçonha…””.

De outro lado, ainda que se desconheçam os detalhes da
encomenda dessa tela monumental a Oscar Pereira da Silva, é
certo que ela nasce em âmbito oficial e no clima defensivo e
de secessão do ruralismo paulista em face da “”Revolução de
1930″”, que logo descambaria nos enfrentamentos de 1932.

Há um modelo, sem variantes, da obra no Museu de Arte de São
Paulo (65 x 87 cm), datado de 1931.

Luiz Marques
10/12/2011

Bibliografia:
1858 – F. A. Varnhagen, Amador Bueno, ou a Coroa do Brasil
em 1641. Madri: Imprenta del Atlas.
1926/1927 – A. d´Escragnolle Taunay, História seiscentista
da vila de São Paulo, São Paulo, 4 volumes.
1998 – L. Marques (org.), Catálogo do Museu de Arte de São
Paulo Assis Chateaubriand. São Paulo: Prêmio Editorial, Vol.
IV, p. 54.
2007 – R. Bentes Monteiro, “”O rei de São Paulo””. Revista de
História, 12 de setembro de 2007
http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/o-rei-de-
sao-paulo”

Artista

PEREIRA DA SILVA, Oscar

Data

1931

Local

São Paulo, Palácio dos Bandeirantes

Medidas

171 X 227 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

História Medieval Moderna e Contemporânea

Período

O SÉCULO XX NA AMÉRICA HISPÂNICA E NO BRASIL

Index Iconografico

876 - O Novo Mundo; 874D1 - As Bandeiras e os Bandeirantes;
874E - Insurreições, Batalhas e Guerras no período colonial;
884 - Brasil República

Autor

Luiz Marques

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