Arquimedes recusa-se a seguir o soldado (

A obra representa o matemático grego Arquimedes (Siracusa, 287 – 212 a.C.) no episódio que levaria ao seu assassinato, descrito por ao menos três fontes antigas: Tito-Lívio, Ab urbe condita, XXV,31, Plutarco, Vida de Marcelo, XIV-XX e Valério Máximo, Factorum et Dictorum Memorabilium libri novem, VIII,7.

Quando, no contexto da Segunda Guerra Púnica, Siracusa foi tomada e saqueada em 212 a.C. pelo grande general romano Marcos Claudio Marcelo, este deu ordens para proteger o matemático que, sob instâncias de Hieron de Siracusa, havia desenvolvido máquinas bélicas para a resistência de sua cidade. Plutarco fornece três versões do ocorrido, a primeira delas consagrada pela iconografia do Seiscentos:

“Achava-se ele sozinho em casa, meditando sobre uma figura geométrica. Com o espírito e os olhos absorvidos nessa contemplação, não notou a chegada dos romanos e a tomada da cidade. Subitamente, um soldado irrompeu em sua frente e ordenou-lhe que o seguisse até Marcelo. Arquimedes não quis partir antes de resolver o problema e o soldado, irritado, desembainhou a espada e o matou”

Segundo Valério Máximo, Arquimedes teria exclamado ao soldado: Noli turbare circulos meos! (Não estrague os meus círculos!).

O tema da independência e da superioridade moral do sábio e do artista em face do poder material do príncipe é um leit-motiv da tradição clássica, retomada nos debates quatrocentistas sobre a verdadeira nobreza. Ele comparece em pintura pela primeira vez, e não por acaso, em uma grisaille de Polidoro da Caravaggio, sob a “Escola de Atenas” de Rafael, na Stanza della Segnatura no Vaticano, afresco que dota a sapiência antiga de estatuto equivalente e complementar à doutrina cristã.

No Seiscentos, o século dos grandes moralistas de matriz estóica, o tema atinge seu apogeu, retornando nos pincéis de Pier Francesco Mola (1612-1666), Langetti (1625-1676), Luca Giordano (1632-1705), Ciro Ferri (1634-1689), entre muitos outros.

Na primeira metade do século XVIII, o tema permanece em voga e é objeto de pinturas, por exemplo, de Francesco Solimena (1657-1747), Giovanni Antonio Pellegrini (1675-1741) e Sebastiano Ricci, que, nos anos 1720, dedica-lhe ao menos três quadretti, decerto destinados a cabinets d´amateur.

Em 1976, Daniels publica-os quando conservados em coleções privadas em Londres (40,2 x 58,5 cm) e em Udine. O exemplar da Fundação Ema Gordon Klabin de São Paulo, atribuído por Giuseppe Fiocco a Sebastiano (documentação da Fundação), foi adquirido em 1952 em Roma, da Galeria Armando Sabatello.

As três obras apresentam variantes mínimas. Nelas, Arquimedes surge como um filósofo cínico, despojado de todas as riquezas materiais, e a composição é tratada com total liberdade em relação às fontes textuais da Antiguidade, a ponto de resultar quase irreconhecível. A trágica tensão entre o sábio e o soldado é atenuada, de modo que a intimação aparece aqui quase como uma conversação campestre.

O tema de Arquimedes não é enfim esquecido pelo neo-classicismo francês, pois o escultor Simon-Louis Boquet dedica-lhe uma estatueta, hoje no Louvre, que será sua pièce de reception na Academia.

A formação de Sebastiano Ricci (1659-1734) é complexa, já que nela intervêm contatos diversos com os estilos de Luca Giordano, Magnasco e de pintores bolonheses como Carlo Cignani. Em sua estada romana, Ricci assimila os afrescos da Annibale Carracci no Palazzo Farnese e a grande decoração barroca. De retorno a Veneza em 1700 e em plena posse da linguagem decorativa barroca romana e emiliana, Ricci fornece um elo fundamental entre o legado de Veronese e o Setecentos mais pleno de Tiepolo e Piazzetta.

Luiz Marques
19/12/2010

Bibliografia:
1974 – A. Pigler, Barockthemen. Eine Auswahl von Verzeichnissen zur Ikonographie des 17. und 18. Jahrhunderts. 2a ed., vol. II, p. 369
1976 – J. Daniels, L´Opera Completa di Sebastiano Ricci, Milão, Rizzoli, p. 124
1997 – L. Marques, Arte Italiana em Coleções Brasileiras. 1250-1950. Boletim do Instituto de História da Arte do Masp, p. 55
2004 – V.A., Universos sensíveis – As coleções de Eva e Ema Klabin. catálogo da exposição, São Paulo, Pinacoteca do Estado
2007 – P. de Freitas Costa, Sinfonia de objetos, a coleção de Ema Gordon Klabin, São Paulo, Iluminuras, p. 145.
2010 – R.A. Zanquelli Accorsi, “A Recusa de Arquimedes, obra de Sebastiano Ricci, da Fundação Cultural Ema Gordon Klabin. Dissertação de Mestrado, Unicamp, 2010 (in fieri)

Artista

RICCI, Sebastiano

Data

1720/ 1725

Local

São Paulo, Fundação Cultural Ema Gordon Klabin

Medidas

42,5 x 60,5 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XVIII

Index Iconografico

314 - As Guerras Púnicas e os Cartaginenses; 314.22 - Marcos Claudio Marcelo, Cônsul (222-208 a.C.); 314.23 - A Tomada de Siracusa (212 a.C.); 314.24 - Morte de Arquimedes (212 a.C.)

Autor

Luiz Marques

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