Cristo diante de Pilatos

Cristo diante de Pilatos (1881) faz parte de uma trilogia,
chamada Trilogia da Paixão (as demais obras são Gólgota,
1884 e Ecce Homo, 1896) executada pelo pintor húngaro Mihály
Munkácsy (1844-1900) a partir da década de 1880.

Ao obter um considerável sucesso no cenário artístico
parisiense em meados da década de 70, após receber a medalha
de ouro no Salão de 1870 com sua célebre “O Último dia de um
Condenado”, Munkácsy torna-se um artista muito apreciado
pelo ambiente salonar parisiense.

Especializa-se em pinturas de gênero, intercalando ora
espaços tipicamente burgueses, requintados e muito bem
decorados ao gosto em voga, ora retratando cenas ambientadas
nos lugares mais afastados do glamour da alta sociedade,
pintando interiores e trabalhadores urbanos.

Por determinado período, flerta com o estilo realista de
Courbet, adotando tons terrosos e retirando um pouco da
luminosidade frívola de outrora. Com o sucesso nos Salões,
não hesita em se dedicar às naturezas mortas de cores
alegres e em captar momentos íntimos da burguesia de Paris.

No final dos anos 70, o marchand austríaco Charles
Seldemeyer não só adquire uma de suas obras, como lhe
oferece um contrato de longa duração, coroando sua carreira
na França e permitindo-lhe um alto padrão de vida. Será sob
recomendação de Seldemeyer que Munkácsy realizará a trilogia
bíblica sobre Cristo.

A primeira tela, Cristo diante de Pilatos, retrata o momento
em que o Messias é apresentado ao governador romano da
Judéia, Pôncio Pilatos, responsável por julgar a procedência
das acusações contra Jesus. Os anciãos israelitas, membros
do Sinédrio, divergem: alguns apontam, acusam, outros,
silenciam, observam atônitos a figura de Cristo, examinam as
atitudes de Pilatos. Sentado à frente de um nicho
ornamentado de cor escura, marcado sobre a única parede
iluminada da cena, este ganha destaque por suas vestes
brancas, e seu olhar cabisbaixo denota certa preocupação.

Assim como os membros do tribunal judaico, ele sabe das
consequências que a condenação de Jesus poderia acarretar.
Não tem certeza da atitude que deve tomar, e posteriormente
levará Cristo a julgamento popular, a fim de se eximir do
ônus de sua condenação.

A cena é claramente dividida em duas partes: o seguimento de
arco que dá origem à parede onde se situa o trono de
Pilatos, à direita, iluminado, também encerra a parte
sombria da composição. O ambiente anterior ao arco, à
esquerda, é escuro, deixando antever apenas duas janelas por
onde avistamos um céu azul e a continuação da cidade. Cristo
está na metade escura, vestindo uma túnica branca, mãos
amarradas e protegido por um soldado dos ânimos acirrados
dos outros membros do julgamento que assistem a tudo atrás
dele.

Há uma contraposição muito eficaz e proposital de Munkácsy
no que diz respeito aos olhares de Jesus e de Pilatos: se
este abaixa a cabeça, medita, hesita, aquele olha adiante,
direciona seu olhar a seu juiz e deixa transparecer firmeza.
Essa linha diagonal traçada entre os dois olhares define os
pontos de máxima iluminação da cena e conduzem a apreciação
do espectador, ao mesmo tempo em que contém grande parte da
carga dramática dela.

A tela é toda composta de tons terrosos: ocres dão passagem
a tons de vermelho, que por sua vez interrompem-se em azuis
que novamente cedem lugar à dominância do ocre. Não há
dúvidas de que há uma atmosfera quente, mesmo que as sombras
tenham grande prevalência no modelar dos corpos e dos
espaços.

Munkácsy optou pelo jogo das texturas: estão nas paredes,
nos nichos, nas roupas e no chão. As grandes zonas lisas de
cores encontram-se principalmente nas vestimentas e
harmonizam-se com as tramas e arabescos do ambiente. Analogamente, o silêncio de Jesus e de Pilatos é quebrado
pelos brados de homens que apontam e acusam.

Cristo diante de Pilatos, tela de grande formato, confirma o
talento minucioso de Munkácsy em captar as sutilezas da
composição, dando forma e individualidade aos homens que
compõe a cena, ilustrando de maneira precisa os ambientes e
ornamentos.

Ele não nega seu apreço pelo desenho exaustivo e pela
composição bem estruturada, jogando com os planos e
arriscando-se ao prolongar o espaço com a colocação de duas
figuras no canto direito da tela. Ao mesmo tempo, somos
colocados como espectadores do julgamento, muito próximos
que estamos do primeiríssimo plano da pintura. Na tela
seguinte, Gólgota, Munkácsy nos mostraria os resultados de
tal celeuma.

Richard Santiago Costa
12/03/12.

Bibliografia
1993 – J.-Ph. Breuille (dir.), Dictionnaire de peiture et de
sculpture : l’art du XIX siècle/ sous la direction de .
Paris: Larousse.

Artista

MUNKÁCSY, Mihály

Data

1881

Local

Ontário, Art Gallery of Hamilton

Medidas

417 x 636 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

50 - SÉCULO XIX

Index Iconografico

606E - Paixão de Jesus Cristo; 606E22 - Jesus diante de
Pôncio Pilatos

Autor

Luiz Marques

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