Mulher Tupi com Criança

Os índios Tupis eram considerados mais civilizados que seus contemporâneos, os Tarairius, seus inimigos históricos. Foram aliados dos holandeses durante a invasão holandesa no nordeste do Brasil no século XVII. Além disso, foram mão-de-obra nas lavouras de cana-de-açúcar da empresa açucareira holandesa.

Nesse contexto insere-se a Mulher Tupi com Criança, de Albert Eckhout (1610-1666). Em sua veste, um sinal de civilização: ao invés de estar nua, a índia cobre sua genitália com uma espécie de saia feita de tecido rústico. Da parte traseira de sua cabeça partem duas tranças adornadas com cordões brancos, em contraste com seus cabelos curtos e levemente desalinhados no alto da cabeça. Seu semblante é sereno, esboça certa indiferença. A criança em seu colo, boca levemente entreaberta, olha com atenção para o pintor.

Os fartos seios da índia são um sinal de que a maternidade era atributo fundamental das índias tupis. Sua tez, de uma morenice alaranjada, harmoniza-se com os tons quentes, muito tropicais, do seu entorno imediato: desde o ocre da pele da criança até as gamas de amarelo dos feixes de palha trançada da cesta, passando pela cabaça em seu braço direito quase camuflada pela proximidade tonal que compartilha com a pele da índia, não fosse o branco iluminado de suas vestes.

A materialidade pela cor atingida por Eckhout nessa cena concretiza-se diante da forte ligação que estabelece entre os pés da Tupi com o chão: ela está enraizada na terra, contamina-se com os tons dela, assenta-se descalça sobre ela, faz parte, nutre-se dela como a bananeira ao lado. Esta simbiose entre o homem e a natureza tropical foram motivo de grande fascínio para o pintor holandês.

Sobre sua cabeça, apóia-se uma cesta de palha trançada, com adornos em forma de X, exemplar da prática da cestaria entre os indígenas. Dentro da cesta ela carrega duas cabaças, provavelmente uma rede de fibras vegetais e outro adorno não identificado. Em seu punho direito está enlaçada a alça de outra cabaça destinada ao transporte de água.

Na paisagem, outro sinal de intensa aculturação, fruto da colonização holandesa: uma casa de fazenda ao estilo holandês, com cobertura de palha e uma torre lateral. Em sua frente, uma alameda ladeada por palmeiras e outra espécie vegetal de difícil identificação. A atividade é intensa: alguns bois pastam, enquanto uma vaca é ordenhada por uma mulher sentada no chão. Próximo à casa, alguns animais de não identificáveis alimentam-se. Algumas crianças brincam em meio aos adultos que trabalham ou dormem em redes.

Ainda com relação à paisagem, temos no primeiro plano uma grande bananeira, introduzida pelos portugueses no Brasil e amplamente utilizada na alimentação da população. Grandes folhas tomam contam da parte superior da cena como a fazer sombra para as duas figuras que se encontram perto dela. No canto inferior direito, um sapo aparece como índice zoológico da região, construído com o detalhismo próprio de Eckhout que confere forte caráter documental à obra.

Mulher Tupi com Criança é uma espécie de alegoria da fecundidade tanto da mulher indígena quanto das terras brasileiras sob domínio holandês. A índia Tupi representa a formação e a continuidade da população nativa, a matriz e o fruto. De forma semelhante, a bananeira, símbolo do mundo tropical por excelência, também nos oferece seus frutos, que alimentarão a força de trabalho que impulsiona o empreendimento holandês.

Ao fundo, a analogia da fertilidade continua: a propriedade agrícola mantida por escravos, onde pastam vacas que fornecem o leite para subsistência, as árvores frutíferas e os animais domésticos. Além disso, os filhos dos escravos da fazenda estão em meio às atividades dos pais, formando um grande conjunto em exaltação ao sucesso da administração da Companhia das Índias Ocidentais e de seu administrador, Maurício de Nassau.

Richard Santiago
18/05/2011

Bibliografia:
1990 – C. do P. Valladares, L. E. de Mello Filho. Albert Eckhout – A presença da Holanda no Brasil, século XVII. Rio de Janeiro: Edições Alumbramento.
2002 – E. van den Boogaart. “A População do Brasil Holandês retratada por Albert Eckhout, 1641-1643”. In ECKHOUT volta ao Brasil 1644-2002. Nationalmuseet, Copenhagen, Denmark.

Artista

ECKHOUT, Albert

Data

1641

Local

Copenhagen, Museu Nacional da Dinamarca

Medidas

265 x 157 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Ciência Ilustração científica e Etnografia

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

1210 - Representações Etnográficas; 1210Ind - Indígenas e outras etnias americanas

Autor

Luiz Marques

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