A Noite

“Acerca desta escultura, colocada, junto com o Dia, aos pés
da estátua do duque Giuliano de` Medici, conserva-se um
texto do próprio Michelangelo (Girardi, 14):

El Dì e la Notte parlano e dicono: – Noi abbiàno col
nostro veloce corso condotto alla morte el duca Giuliano; è
ben giusto che e` ne facci vendetta come fa. E la vendetta è
questa: che avendo noi morto lui, lui così morto ha tolto la
luce a noi e cogli occhi chiusi ha serrato e` nostri, che
non risplendon più sopra la terra. Che arrebbe di noi dunche
fatto, mentre vivea?

“”O Dia e a Noite falam e dizem: – Em nosso curso veloz,
conduzimos à morte o duque Giuliano; é justo que se vingue,
como faz. E tal é sua vingança: tendo-o matado, ele, morto,
tirou-nos a luz e com os olhos cerrados, cerrou os nossos,
que não resplendem mais sobre a terra. Que teria feito de
nós enquanto vivesse?””

O texto, não isento de ironia como aventado pela crítica, é
uma variante dos motivos funerários da morte enlutada por
arrebatar da vida um homem valoroso, dos motivos também dos
“”Pleurants”” ou das Artes Liberais em luto (“”Arts bereft””),
segundo a fórmula discutida por Panofsky [1964:73-88].

Na Vida de Michelangelo (1550 / 1568), Giorgio Vasari, por
sua vez, propõe a seguinte descrição da estátua:

“”E que poderei dizer da Noite, estátua não rara, mas única?
Quem jamais em qualquer século viu com tal arte estátuas
antigas ou modernas? Percebem-se aí não somente a quietude
de quem dorme, mas a dor e a melancolia de quem perde algo
de honrado e grande. Deve-se crer de fato que esta é a Noite
em que Michelangelo mergulhou todos os que por algum tempo
na escultura e no desenho pensavam, já não digo superar, mas
a ele comparar-se. Nesta figura, capta-se a sonolência que
se vê nos semblantes adormecidos. É essa a razão que levou
pessoas doutíssimas a fazer em seu louvor muitos versos
latinos e rimas em vernáculo, como estes, dos quais não se
sabe o autor [na realidade, de Giovanni di Carlo Strozzi, da
Accademia fiorentina degli Umidi]:

La Notte, che tu vedi in sì dolci atti
Dormire, fu da un Angelo scolpita
In questo sasso: e perché dorme, ha vita:
Destala, se no `l credi, e parleratti
.

(A Noite que tu vês em tão doces poses / Dormir, foi por um
Anjo esculpida / Nesta pedra; e porque dorme, tem vida; /
Desperta-a, se não crês, e te falará).

Aos quais, na pessoa da Noite, respondeu Michelangelo assim:

Grato mi è il sonno, e più l`esser di sasso:
Mentre che il danno e la vergogna dura,
Non veder, non sentir, m`è gran ventura;
Però non mi destar; deh parla basso!

(É grato a mim o sono e mais o ser de pedra / Enquanto duram
o dano e a vergonha; / Não ver e não sentir me é grã
ventura: / Assim, não me despertes; fala baixo!)

Não há dúvida de que a resposta de Michelangelo é fortemente
alusiva à situação política de Florença nos anos 1550.

A figura da Noite é evocada por Charles Baudelaire como
congenial a seu temperamento no soneto L`Idéal,
número 19 das Fleurs du Mal:

Ce ne seront jamais ces beautés de vignettes,
Produits avariés, nés d´un siècle vaurien, (…)
Qui sauront satisfaire un coeur comme le mien. (…)
Ce qu´il faut à ce coeur profond comme un abîme,
C´est vous, lady Macbeth, âme puissante au crime, (…)
Ou bien toi, grande Nuit, fille de Michel-Ange,
Qui dors paisiblement dans une pose étrange
Tes appas façonnés aux bouches des Titans
.

Além de seus significados associados ao cosmos, à passagem
do tempo e à simbologia funerário-divinizante do mito de
Leda, os atributos da escultura – a máscara, a coruja e o
diadema em forma de lua com uma estrela de oito pontas –
suscitaram interpretações diversas.

A presença da máscara trágica foi interpretada como um
autoretrato do artista, cf. Paoletti [1992:432], ou como um
“”espírito noturno do mal””, cf. Santi [1994:34]. Ainda
segundo este autor, a limpeza da estátua, iniciada em 1985,
revelou um mármore extremamente brilhante, escolhido pelo
artista provavelmente para “”acentuar o efeito de luar sobre
a figura, que parece uma criatura que jamais viu o sol””.

Contrariamente, não apenas o tipo de mármore escolhido para
o Dia, mas também a técnica do trabalho com um cinzel
dentado (gradina), “”cria um sutil efeito de chiaroscuro”” e
“”enfatiza a aparência de uma pele bronzeada, como que
permanentemente exposta ao sol””. Santi conclui agudamente
que Michelangelo “”era não somente um pintor escultórico como
um escultor pictórico””.

Luiz Marques
25/07/2010″

Artista

Michelangelo Buonarroti

Data

1521/ 1530

Local

Florença, San Lorenzo, Sacristia Nuova

Medidas

desconhecidas

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Alegorias e Temas Artísticos Morais e Psicológicos

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

12JupxTem1 - As Horas; 10Cao2 - A Noite; 1104 -
Representações do Tempo; 1104Noit - A Noite; 454 - Entidades
e Simbologias Funerárias; 1172 - O sono

Autor

Luiz Marques

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