Hermes carregando Diônisos criança (Dionisóforo)

O grupo representa uma cena da primeira infância de
Diônisos. Segundo Apolodoro, Biblioteca (III,4):

“Zeus enamorou-se de Sémele [filha de Cadmos e Harmonia] e
uniu-se a ela escondido de Hera. Mas Sémele, induzida em
engano por Hera, pois que Zeus lhe prometera o que quisesse,
pediu ao deus para se lhe mostrar tal como quando se unia a
Hera. Zeus não pôde recusar e surgiu no quarto de Sémele
sobre seu carro, com os trovões e os raios e todo seu
fulgor. Sémele é fulminada de terror. Zeus retirou das
chamas o feto de seis meses que ela abortara e costurou-o em
sua coxa. (…) No devido momento, Zeus abriu a costura, fez
nascer Diôniso e o confiou a Hermes. Este o levou a Ino e
Atamantes e os persuadiu a educá-lo como uma menina.

Charles Picard reconstitui o momento escolhido por
Praxíteles para este Dionisóforo:

“Hermes acaba de receber das mãos de Zeus o pequeno Diônisos
nascido de Sémele. Ele o leva às Ninfas de Nysa, que o
nutrirão nas montanhas. Na estrada, o mensageiro detém-se e,
para distrair seu companheiro, estende-lhe com o braço
direito um cacho de uvas, que o pequeno deus guloso tenta
alcançar com a mão rechonchuda. A atitude não é nova:
Cefisódotos [pai de Praxíteles] já a havia achado. O ritmo é
dado pelo apoio do corpo no cotovelo (…). Uma perna
sustenta o corpo de Hermes que, ligeiramente fora de prumo,
procura com insistência o apoio do suporte” (apud Pigeaud).

Descoberta por arqueólogos alemães em 1877 no templo
de Hera em Olímpia, a obra foi e é considerada um autógrafo
do próprio Praxíteles pelo Museu de Olímpia e por diversos
estudiosos, entre os quais Gisela Richter (1959) e Karl
Schefold (1965), para quem se trata “da mais pura criação
conservada dos últimos tempos do clássico tardio em Atenas”.
Oscar Antonsson, de seu lado, pensa se tratar de um Pan e
não de Hermes:

“O grupo marmóreo de Olímpia, conhecido como ´Hermes
carregando Diônisos criança´, é um original de Praxíteles
alterado no período imperial romano. O grupo representa Pan
carregando Diônisos criança, e provavelmente incluía também
uma mênade ou ninfa esculpida por Praxíteles. Além disso,
ela foi de início colocada em um pedestal, hoje perdido,
provavelmente decorado com ninfas em relevo”.

Outros estudiosos consideram-no, seja obra de um outro
Praxíteles, do século II a.C., seja como o qualifica Jackie
Piegeaud, “uma extraodinária cópia”, opinião avançada pela
primeira vez em 1927 por Carl Blümel. Ela se baseia em uma
análise da evolução da técnica da escultura antiga, bem como
no fato de que a estátua ergue-se sobre uma base do século I
a.C. e que sua posição teria sido concebida para esta base.

A incerteza permanece, sem dúvida, porque o grupo de Olímpia
é, como bem sublinha Richter, “de uma qualidade de fatura
claramente superior à das numerosas cópias romanas
existentes”.

Que a obra ou seu original seja de Praxíteles assegura-o
Pausânias (Periegese, V, 17, 3) que visitou Olímpia em 174
d.C. e que não deixaria de especificar, como faz notar
Richter, que se tratava de outro Praxíteles, se tal fosse o
caso:

“Em tempos mais recentes outras estátuas votivas foram
dedicadas no Heraion, entre as quais há um Hermes marmóreo
que carrega Diônisos criança, obra de Praxíteles”.

Escultor ateniense em bronze e mármore, ativo entre 380 e
326c., Praxíteles é, ao lado de Lisipo, Escopas e Leocares,
o mais destacado artista do século IV a.C.. Filho do
escultor Cefisódotos e pai de Cefisódotos o Jovem e de
Timarcos, Praxíteles tem uma carreira de excepcional
sucesso, que o leva da esfera da comitência privada
ateniense à da comitência pública e internacional.

É um dos primeiros artistas a desfrutar de uma posição
social elevada e a trabalhar de modo independente, isto é,
sem sujeição a um mecenas, escolhendo seus próprios temas,
dentre os quais se destacam as divindades eleusinas,
Diônisos, Afrodite, Apolo, Ártemis e Leto. A magnificência
com que presenteia seu modelo, Phryne, é emblemática desta
posição de artista liberal.

Luiz Marques
14/01/2012

Bibliografia:
1892 – J. Lindon Smith, The Hermes of Praxiteles and the
Venus Genetrix. Experiments in Restoring the Color of Greek
Sculpture. Boston: Museum of Fine Arts.
1927 – C. Blümel, “Griechische Bildhauerarbeit”. Jahrbuch
des Deutschen Archäologischen Instituts. Ergänzungsheft XI.
1931 – R. Carpenter, “Who carved the Hermes of Praxiteles”.
American Journal of Archaelogy, pp. 249-261.
1937 – O. Antonsson, The Praxiteles Marble Group in Olympia.
Estocolmo: Viktor Pettersons.
1948 – Ch. Picard, Manuel d´Archéologie grecque. La
Sculpture. Période classique – IVe siècle, Paris: Picard, p.
560.
1959 – G.M.A. Richter, L´arte greca. Turim: Einaudi, 1969,
pp. 80-81.
1965 – K. Schfold, La Grèce classique. Paris: Albin Michel,
p. 221.
1988 – A. Corso, Prassitele, Roma, 1991
1996 – O. Palagia, The Dictionary of Art, Londres, Grove,
vol. 25, ad vocem
2007 – J. Pigeaud, Praxitèle. Paris: Dilecta, p. 50.

Artista

Praxíteles (cópia?)

Data

-340/ 330 a.C.

Local

Olímpia, Museu Arqueológico

Medidas

desconhecidas

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

ARTE GRECO-ROMANA

Index Iconografico

12Mer - Mercúrio Hermes; 12Mer - Hermes; 12Bac - Diônisos,
Baco, Liber; 12Bac1 - Nascimento, infância e educação de
Diônisos; 12JupxSém - Zeus Júpiter e Sémele

Autor

Luiz Marques

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