Primavera. Detalhe 4: Mercúrio

“(conclusão)

Sempre segundo Wind (1958), a maior dificuldade de toda
interpretação da Primavera é explicar a personagem e o
discurso de Mercúrio. Tradicionalmente, Mercúrio é
considerado “”a escolta e o guia das Graças””, tal como em
Lilius Gregori Gyraldus (1548) ou em Vincenzio Cartari.

Mercúrio era sobretudo, para Ficino, o deus “”engenhoso””, o
deus sagrado aos gramáticos e aos metafísicos, o revelador
do conhecimento secreto ou “”Hermético””, de que sua vara ou
caduceu se tornara o símbolo. Em suma, o “”divino mistagogo””,
já que, segundo Ficino, “”ele conclama a mente para as coisas
celestes através do poder da razão””. Tal é a razão pela qual
Ficino atribuiu-lhe o primeiro lugar na “”tríade conversiva
que reconduz ao mundo superior””:

“”a tríade de conversão ou de recondução ao mundo superior,
na qual Mercúrio situa-se no primeiro grau, invocando de
novo os ânimos através da razão em direção às coisas
sublimes””.

A ideia da dissipação das nuvens assume assim um caráter não
apenas descritivo, mas simbólico da contemplação
intelectual. Mercúrio brinca com as nuvens como símbolo do
jogo revelação / opacidade, como símbolo do caráter
caliginoso da iniciação, da verdade revelada, de modo que a
verdade possa ser transmitida sem cegar, sem fulminar.

A Graça ferida por Cupido olha em sua direção, porque olha
em direção ao amor transcendente – o amor cósmico ou divino
– como variante da morte, de onde as chamas invertidas de
Mercúrio que a ele e a ela (o amor divino e a morte) conduz.
As mesmas chamas invertidas que aparecem nas esferas
celestes das ilustrações de Botticelli da Divina Comédia.

O amor platônico não era entendido por Ficino em sua acepção
popular, como amor destituído de dimensão erótica, todo o
contrário. O amor platônico guarda uma evidente analogia com
a idéia mesmo da primavera, com a idéia do ciclo da
palingenesia natural, do eterno retorno purificado da
potência germinadora do mundo.

Tal é a razão pela qual Mercúrio e Zéfiro são figuras
simétricas em interação: redistanciar-se do mundo com o
desprendimento de Mercúrio / reentrar no mundo com a
impetuosidade de Zéfiro, tais são as duas forças
complementares do amor, de que Vênus é a guardiã e Cupido, o
agente: “”A razão assinala o rumo, mas a paixão é o vento””,
diz justamente Ficino.

Luiz Marques
17/01/2011

Bibliografia
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di Sandro Botticelli””. La Rinascita del paganesimo antico.
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1998 – F. Zöllner, Botticelli. Images of Love and Spring.
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2001 – C. Acidini Luchinat, Botticelli. Le allegorie
mitologiche. Milão, Electa.

Artista

BOTTICELLI, Sandro

Data

1482c.

Local

Florença, Galleria degli Uffizi

Medidas

203 x 314 cm

Técnica

Têmpera sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

1104 - Representações do Tempo; 1104Est - Representações das
Estações; 1104Prim - A Primavera; 12Ven - Vênus Afrodite;
130Gra - As Graças Eufrosine, Tália e Áglae; 12Mer -
Mercúrio Hermes; 10Venz - Zéfiro

Autor

Luiz Marques

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