Madonna della Scala

O tipo iconográfico da Madonna della Scala de Michelangelo provém de Bizâncio: é a Galactotrophousa, em latim, Virgo lactans, ou seja, a Virgem que amamenta o Menino.

Este tema tem conexões com o mito de Isis lactans (aleitando Horus ou Arpócrates), absorvida pela iconografia cristã desde o afresco da catacumba de Priscilla, do século II.

Ele é atestado no século VIII em uma carta do papa Gregório II (715-731) a Leão III Isauriano, imperador de Constantinopla de 717 a 741, escrita em plena crise iconoclasta (726-729): “e também as imagens de Nossa Senhora trazendo em seus braços nosso Senhor e Deus, nutrindo-o com seu leite”. O tema reaparece visualmente no século IX em uma iluminura do Evangelho latino (Bibl. Nat. de France, Ms. lat. 10438), cf. Lasareff [1938:26-36].

A partir presumivelmente da Madonna Litta de Leonardo da Vinci e ateliê (Marco d´Oggiono?) no Ermitage, executada por volta de 1490, esse tipo retorna e consolida-se no ambiente leonardiano de Milão em inícios do século XVI, tal como no Giampietrino do Museu de Arte de São Paulo, mas parece mais raro na Toscana após Ambrogio Lorenzetti, como já notado por Lasareff [1938:36] e Tolnay [1943].

Michelangelo e Leonardo são, portanto, os responsáveis pelo retorno do tema da Virgo lactans. Michelangelo é particularmente afeito a este tipo, pois a ele retorna várias vezes, por exemplo, em um desenho da Casa Buonarroti, 541 x 396 mm, inv. 71 F e na Madona Medici, ambos dos anos 1520.

H. Wölfflin [1900] salienta que a partir do tema da Virgo lactans, Michelangelo cria uma Madona trágico-profética, ciente do sacrifício futuro de seu filho, que ela protege em seu manto. Tolnay volta a esta interpretação em 1964:

“na realidade, o tema da morte aparece já nas primeiras esculturas: nas Madonas de sua juventude, nas quais a mãe já pressente a Paixão do Filho” (in Tod und Auferstehung bei Michelangelo, p. 7).

A mesma idéia encontrava-se em 1881 em Courajod, apud Tolnay [1943]:

“A Virgem sonhadora, grave, triste, quase altiva, o olhar inquietantemente fixo diante de si, parece ter um pressentimento de sua infelicidade, como uma visão do futuro”.

Segundo Tolnay, haveria uma contaminação dessa imagem trágica da Virgem com a itálica Terra Mater, considerada por Ênio, Lucrécio e Varrão, a Senhora da Morte (Mistress of the Dead). De resto, as analogias propostas com estelas, lastras sepulcrais da Antiguidade adornadas com baixos-relevos funerários, são frequentes na literatura sobre esta obra, de Strzygowsky [1891:207 216] e Wölfflin [1900] a Hartt [1969:45], e reforçam as conotações sugeridas por Tolnay.

A doutrina da potência profética da Virgem, de origens patrísticas, revive na mística do século XII, em especial no abade Rupert de Deutz e em S. Bernardo, artífices da interpretação marial do Cântico dos Cânticos. Em seus Commentaria in Canticum Canticorum, Rupert escreve:

Prophetissa namque eram et ex quo mater ejus facta sum, scivi eum ista passurum

“Pois eu era uma profetiza, e pelo fato de ter sido feita mãe dele, soube pelo que ele devia passar”, apud Lavin [2001:64].

O contexto em que nasce a Madonna della Scala é diverso do da mística marial do século XII. A obra situa-se nas equivalências entre saber antigo e doutrina cristã, intensamente investigadas no último quarto do século XV, por exemplo, no encontro em Ferrara em 1479, em Reggio Emilia em 1482 e em Florença em finais dos anos 1480, entre Giovanni Pico della Mirandola e Girolamo Savonarola.

De fato, no século XV, a especulação sobre a presciência da Virgem não provém apenas da lírica marial e dos comentários ao Antigo Testamento. Ela passa, doravante, a ser conferida pelo conjunto da sapiência antiga: caldaica, greco-romana, mosaica e sibílica. Por essa razão, torna-se um tema central do pensamento de Pico – mais que todos interessado nessa confluência de saberes – e motivo de suas incursões na magia natural, na cabala, na astrologia e no hermetismo.

Luiz Marques
08/01/2011

Artista

Michelangelo Buonarroti

Data

1490/ 1492c.

Local

Florença, Casa Buonarroti

Medidas

55,5 x 40 cm

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

711 - A Virgem com o Menino Jesus

Autor

Luiz Marques

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