O Nascimento de Afrodite. Detalhe 1: uma Hora

“(continuação do texto que acompanha a imagem principal)

Embora, portanto, Bertoldo e Filippino Lippi possam ter em
mente nas obras acima mencionadas a figura de Afrodite
Urânia, o tema propriamente dito do nascimento de Afrodite
representado por Botticelli é, até onde alcança a
documentação disponível, um unicum no século XV.

Como bem estabelecido pelos estudiosos desde Warburg, a
fonte imediata do artista é o poema composto por Angelo
Poliziano entre 1475 e 1478, intitulado Stanze cominciate
per la giostra del magnifico Giuliano di Piero de´
Medici
, poema que decerto inspirou mais de um artista
nos anos sucessivos, inclusive Rafael na Galateia da
Villa Farnesina.

No caso do nascimento de Afrodite, duas estrofes
consecutivas do poema (I,99-100) são significativas. Seu
contexto é a descrição ecfrástica do palácio (reggia)
de Afrodite (estrofes 96 e seguintes), cujas portas são
esculpidas com relevos da história da castração de Uranos
por Cronos (estrofe 97):

Nell´una è sculta la ´nfelice sorte
del vecchio Celio; e in vista irato pare
suo figlio, e colla falce adunca sembra
tagliar del padre le feconde membra

(Em uma é esculpida a infeliz sorte do velho Céu; e seu
filho aparece irado, e com a foice curva parece cortar do
pai o fecundo membro)

Chega-se, então à estrofe 99, que serve de modelo a
Botticelli:

Nel tempestoso Egeo in grembo a Teti
si vede il frusto genitale accolto,
sotto diverso volger di pianeti
errar per l´onde in bianca schiuma avvolto;
E dentro nata in atti vaghi e lieti
una donzella non con uman volto
da´ zefiri lascivi spinta a proda,
gir sopra un nicchio; e par che ´l ciel ne goda
.

(No tempestuoso Egeu, no seio de Tetis, vêem-se as
genitálias acolhidas, durante muitas órbitas planetárias,
errar pelas ondas envoltas em branca espuma; e dentro,
nascida em posições belas e ledas uma donzela não com
sembante humano, levada em uma concha por zéfiros lascivos à
margem [de Cítera e depois Chipre] e parece que o céu se
alegre).

A descrição dos relevos do nascimento de Afrodite adentra
pelas duas estrofes sucessivas, comentando agora a impressão
de verdade que suscitam:

Vera la schiuma e vero il mar diresti,
e vero il nicchio e ver soffiar di venti;
la dea negli occhi folgorar vedresti,
e ´l cel riderli a torno e gli elementi;
l´Ore premer l´arena in bianche vesti,
l´aura incresparle e crin distesi e lenti;
non una, non diversa esse lor faccia,
come par ch´a sorelle ben confaccia

(dirias ser verdade a espuma e verdadeiro, o mar e a concha
e o soprar dos ventos; verias a deusa nos olhos fulgurar e o
céu rir-lhe à volta e os elementos; as Horas pisarem na
areia com brancas vestes, a brisa a encrespar-lhes os
cabelos, soltos e lentos; não idênticos, nem diversos são
seus semblantes, como é conveniente entre irmãs).

Giurar potresti che dell´onde uscissi
la dea premendo con la destra il crino,
con l´altra il dolce pomo ricoprissi;
e stampata dal piè sacro e divino,
d´erbe e di fior l´arena si vestissi;
poi, con sembiante lieto e peregrino,
dalle tre ninfe in grembo fussi accolta,
e di stellato vestimento involta
.

(poderias jurar que das ondas saísse a deusa segurando os
cabelos com a mão direita, e com a outra, recobrindo o doce
pomo; e marcada pelo pé sagrado e divino, de ervas e de flor
a areia se vestisse; depois, com semblante ledo e precioso,
no seio das três ninfas fosse acolhida e envolta em um manto
estrelado).

Vê-se como se tem aqui os três grandes componentes da
composição de Botticelli. Afrodite na concha, os Zéfiros
amantes e as “”Horae””, cujo significado deve ser explicitado.
Divindades das estações, muito tardiamente designando as
horas do dia, as Horas são filhas de Zeus e Têmis, e irmãs
das Moiras. Presidem o ciclo da vegetação. Mas elas são
também as servas de Afrodite, do mesmo modo que as Graças.

Impulsionada pelos Zéfiros amorosos, Vênus desliza sobre uma
concha em direção à margem da ilha de Chipre, onde a casta
Hora lança-lhe um manto florido para acolhê-la, enquanto as
rosas que caem do sopro dos Zéfiros perfumam o mar espumoso.

(continua no texto que acompanha o detalhe 2)

Artista

BOTTICELLI, Sandro

Data

1485c.

Local

Florença, Galleria degli Uffizi

Medidas

172,5 x 278,5 cm

Técnica

Têmpera sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

10Ura1 - A Castração de Uranos por Saturno e o Nascimento de
Afrodite; 12Ven - Vênus Afrodite; 10Venz - Zéfiro; 12JupxTem1
- As Horas

Autor

Luiz Marques

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