Rinaldo e Armida

“Registro inventarial: T. 3634

A obra pertence ao tesouro real português e é trazida ao
Brasil com a vinda da família real em 1808. Nos inventários
da Academia Imperial de Belas Artes era atribuída a “”Escola
Italiana””.

O quadro figura uma passagem da Gerusalemme Liberata
de Torquato Tasso (Canto XIV, oitava 68), publicada em
1581. Tendo, por força de sortilégio, adormecido Rinaldo,
a feiticeira Armida, cujo carro alado é visto ao fundo,
apresta-se a matá-lo, quando a contemplação de seu semblante
desperta-lhe uma irresistível paixão. Compõe-lhe então, à
guisa de cadeias, para raptá-lo, uma guirlanda de flores:

Di ligustri, di gigli e de le rose
le quali fiorian per quelle piaggie amene,
con nov´arte congiunte, indi compose
lente ma tenacissime catene.
Queste al collo, a le braccia, a piè gli pose:
così l´avinse e così preso il tiene;
quinci, mentre egli dorme, il fa riporre
sovra un suo carro, e ratta il ciel trascorre.

Conforme notam Rouchès, Waterhouse e Lee, trata-se
de um momento do poema relativamente raro no contexto da
iconografia tassiana.

Dado o estreito parentesco estilístico com a “”Dança de
Gênio”” de coleção privada genovesa, a datação de nossa tela
deve-se adequar à que lhe propõe Catarina Marcenaro (1969,
p.88), isto é, a partir de meados dos anos 1630, quando “”a
cultura rubensiana e vandyckiana, filtrada por Vincenzo
Malò, é traduzida em matéria refinada, erodida e vibrante de
sombras ligeiras.””

A breve biografia de Anton Maria Vassallo (1620c.-post 1654)
por Soprani (1674) e a lacônica menção de Baldinucci (1681)
fornecem um ponto de partida pouco propício ao avanço da
pesquisa, iniciada por Grosso em 1922, a partir da leitura
da assinatura do pintor em um quadro do Ermitage.

Um dos mais ricos comerciantes de seda de Gênova, seu pai
oferece-lhe uma educação primorosa, consagrada de início às
letras (Lanzi 1789/1809, III, p. 337; Labò 1926).
Adolescente ainda, ele entra no ateliê de Vincenzio Malò
(1609c.-1650c.), artista flamengo e rubensiano, cuja
atividade em Gênova, a partir de 1634, prospera na esteira
de Cornelis De Wael.

Em seguida, o jovem pintor estabelece ateliê próprio, logo
reputado na retratística (embora nada se conheça dele no
gênero), na pintura animalista e de natureza morta. São
conhecidas algumas de suas telas de igreja, para as quais o
solicitam os Jesuítas, os Olivetanos, bem como famílias
patrícias, entre as quais os Spinola, para a igreja de
Sant´Anna.

Uma tão bem sucedida carreira é interrompida por uma morte
prematura. As pesquisas de Belloni (1974, p. 84) levaram-no
a detectar em oito dos inventários de coleções seiscentistas
a presença de quarenta de suas telas, não restritas, de
resto, ao repertório temático em que o confinara Soprani.

É possível distinguir uma evolução estilística coerente na
breve carreira do pintor em direção a uma inserção mais
profunda na cultura propriamente genovesa, tangenciando mais
e mais Orazio de Ferrari e Assereto, como bem atinou R.
Longhi (1926, p.45), que não deixou de notar pontos de
contatos entre este último e Vassallo “”na fase tardia””.

Luiz Marques
18/11/2011

Bibliografia:
1674 – R. Soprani, Delle vite de´ pittori scultori ed
architetti genovesi. Ed. R.Soprani C.G.Ratti, Gênova, 1768.
1681 – F. Baldinucci, Notizie dei Professori del Disegno da
Cimabue in qua. Ed. P. Barocchi e A. Boschetto. Florença,
1974-75, vol. V, p. 407.
1920 – E. Rouchès, “”L´interprétation du “”Roland Furieux”” et
de la ´Jérusalem délivrée´ dans les Arts Plastiques””. Etudes
Italiennes, pp. 129-140.
1926 – M. Labò, “”Anton Maria Vassallo””. Thieme-Becker, 34,
ad vocem.
1922 – O. Grosso, “”Anton Maria Vassallo e la pittura
d´animali nei primi del ´600 a Genova””. Dedalo, 3,
1922/1923, pp. 502-522.
1926 – R. Longhi, “”Tangenze Caravaggesche nel Guercino””.
Opere Complete, vol. II: Saggi e Ricerche (1925-1928).
Florença: Sansoni, 1967, 27-34
1948 – E.K. Waterhouse, “”Tasso and the Visual Arts””. Italian
Studies, III, pp. 146-168.
1961 – W.R. Lee, “”Armida´s Abondonment. A Study in Tasso
Iconography before 1700″”. In, Essays in Honor of Erwin
Panofsky. 2 vol. New York, p. 197.
1965 – M. Bonzi, Dal Cambiaso al Guidobono. Gênova, p. 105.
1969 – C. Marcenaro (org.), Pittori genovesi a Genova nel
´600 e nel ´700. Gênova, p. 88.
1974 – V. Belloni, Pittura genovese del Seicento. Vol. II:
Maestri e Discepoli. Gênova, p. 84.
1979 – M. Borzone, Museo degli Ospedali Civili di Genova
(San Martino). Gênova, p. 15.
1988 – E. Baccheschi, Il Museo dell´Accademia Ligustica di
Belle Arti. Gênova, p. 93
1992 – L. Marques, Pintura Italiana Anterior ao Século XIX
no Museu Nacional de Belas Artes. São Paulo: Área Editorial,
pp. 135 e 173.
1996 – L. Marques (com a colab. de Z. Paternostro), A
Arte Italiana no Museu Nacional de Belas Artes. Corpus da
Arte Italiana em Coleções Brasileiras, Vol. 2. Rio de
Janeiro: Museu Nacional de Belas Artes, pp. 47-48.”

Artista

VASSALLO, Anton Maria

Data

1635/ 1640c.

Local

Rio de Janeiro, Museu Nacional de Belas Artes

Medidas

116,5 x 141,5 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Literatura Medieval Moderna e Contemporânea

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

1000Tass - Torquato Tasso; 1000TaRi - Rinaldo e Armida

Autor

Luiz Marques

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