A Madalena no sepulcro (A Veneziana)

Assinado na base do arco:

JOANNES JERONIMUS SAUOLDUS D / BRISIA / FACIEBAT
(Giovanni Gerolamo Savoldo de Brescia pintava)

Representada num plano muito aproximado, uma figura feminina
de perfil volta a cabeça para o espectador enquanto a mantém
apoiada em sua mão direita, signo de melancolia ou de
lamentação.

Cobre-a inteiramente, um espesso véu de seda animado por um
extravagante sistema de pregas em cadências luminosas que
constitui visualmente o tema central do quadro. Ao fundo, um
muro em ruínas sugere uma corte que bloqueia o espaço e dá
ainda maior relevo ao drapeado da figura.

Que se trate de Madalena é hipótese verossímil, dado que as
três variantes menores e não-assinadas desta composição – em
Florença, Zurique e Londres -, mostram o vaso de alabastro
contendo unguentos, atributo de Madalena. A ausência deste
elemento na versão de Berlim justifica o título alternativo,
La veneziana.

O muro em ruínas ao fundo, sempre se interpretado como
alusivo ao santo sepulcro, fortalece a suposição de que se
trate de um Noli me tangere, isto é, da representação
da Madalena na cena da aparição do Cristo ressuscitado, que
ela confunde inicialmente com um jardineiro. Mary Pardo
(1989) demonstra que se pode efetivamente remeter o tema do
quadro a João XX, 11-16:

Maria autem stabat ad monumentum foris plorans. Dum ergo
fleret, inclinavit se in monumentum et videt duos angelos in
albis sedentes, unum ad caput et unum ad pedes, ubi positum
fuerat corpus Iesu. Et dicunt ei illi: “Mulier, quid
ploras?” Dicit eis: “Tulerunt Dominum meum, et nescio, ubi
posuerunt eum”. Haec cum dixisset, conversa est retrorsum et
videt Iesum stantem…

“Maria estava junto ao sepulcro, de fora, chorando. Enquanto
chorava, inclinou-se para o sepulcro e viu dois anjos,
vestidos de branco, sentados no lugar onde o corpo de Jesus
fora colocado, um à cabeceira e outro aos pés. Disseram-lhe
então: ´Mulher, por que choras?´ Ela lhes diz: ´Levaram o
meu Senhor e não sei onde o colocaram!´. Dizendo isto,
voltou-se e viu Jesus de pé…”.

Um retrato alegórico de uma cortesã (uma “Veneziana”) na
figura de uma Madalena contrita é perfeitamente concebível.
Madalena é não apenas a pecadora conversa por excelência ao
amor do Cristo, mas a primeira a testemunhar sua aparição
post-mortem.

Por volta de 1530, Madalena era particularmente associada às
cortesãs e às prostitutas. O Noli me tangere que
Michelangelo desenha para Vittoria Colonna justamente em
1531, cartão que serve de base para a pintura de Pontormo,
hoje em coleção privada em Busto Arsizio (Milão), explica-se
pelo apoio que a Marquesa de Pescara prodigalizava à Casa
delle Convertite di Roma
, uma congregação atuante na
recuperação de prostitutas (Pentite) que não
desejavam abraçar a vida religiosa.

O Noli me tangere devia ser destinado a esta sede
romana, assim como, possivelmente, outro quadro de mesmo
tema que a marquesa obtém de Tiziano também em 1531, através
de Federigo II Gonzaga, perdido, mas louvadíssimo por
Federigo e por Isabella d´Este, sua mãe.

Outra possibilidade igualmente plausível de identificação
foi proposta por Renata Stradiotti (1990). Em Veneza, Pietro
Contarini, comitente de Savoldo, compõe um poema sobre a
Paixão de Cristo narrada pela Madalena e pelas Virtudes
Teologais, descritas justamente como figuras femininas sob
mantos. A presença tão ostensiva deste manto induz a
estudiosa a sugerir que essa figura possa impersonare
l´amore o la carità
.

Há propostas divergentes acerca da datação e da cronologia
relativa das quatro versões conhecidas dessa obra. Antonio
Boschetto considera a versão Contini-Bonacossi de Florença,
hoje no Palazzo Pitti, a primeira e a de Berlim a mais
tarda, em torno de 1540, mas outros estudiosos antecipam em
mais de um decênio sua execução.

Luiz Marques
05/12/2011

Bibliografia:
1648 – C. Ridolfi, Le Meraviglie dell´Arte ovvero Le Vite
degli Illustri Pittori Veneti e dello Stato [Veneza]. Ed.
D.T. von Hadeln, Berlim, 1914, p. 271, nota 12.
1963 – A. Boschetto, Giovan Girolamo Savoldo. Milão:
Bramante Ed., Tavola 24.
1989 – M. Pardo, “The subject of Savoldo´s Magdalene”. Art
Bulletin, 71, 1, pp. 67-91.
1990 – R. Stradiotti, in B. Passamani, Giovanni Gerolamo
Savoldo tra Foppa Giorgione e Caravaggio. Catálogo da
exposição, Brescia. Milão: Electa, p. 146.

Artista

SAVOLDO, Giovanni Girolamo

Data

1528c. / 1540

Local

Berlim, Gemäldegalerie

Medidas

94,2 x 75,3 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

806 - Imagens e Ciclos Biográficos de santos; 806Mada -
Maria Madalena; 618.4 - Noli me tangere; 1367 - A Cortesã

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *