Índia Tarairiu

A Índia Tarairiu de Albert Eckhout (1610-1666) é bem delineada sobre a paisagem, com uma pele em tons de ocre matizados de acordo com o claro-escuro. A índia se apresenta para nós com o corpo em diagonal, voltando o rosto levemente em três quartos para o observador. Sua feição é amena e tranquila. Seus cabelos são cortados em forma de “prato” no alto da cabeça, divididos por uma estreita faixa ao redor da testa, separando-os das mechas compridas que caem até os ombros.

Na mão direita, segura com naturalidade uma mão e parte de um antebraço humanos. Na cesta que carrega nas costas, sustentada por uma faixa de palha trançada apoiada sobre sua cabeça, encontra-se outro membro humano, um pé, juntamente com uma cabaça. A presença de membros humanos nessa cena confirma as práticas canibais dos índios Tarairius. Ingerir a carne humana devidamente limpa e assada ou cozida, era um hábito comum e de grande força simbólica para eles, o que não poderia deixar de ser retratado por Eckhout ao fixar essa figura tão característica dos povos Tarairius.

Na mão esquerda, a índia segura um ramo de folhas, as mesmas que compõem um chumaço responsável por recobrir seu sexo. No braço esquerdo, um adorno, espécie de pulseira de sementes verdes. Nos pés, sandálias feitas de cascas da árvore caraguatá. Entre suas pernas, um cão bebe água num pequeno regato, explicitando a estreita relação que os Tarairius tinham com seus cães. Ao mesmo tempo, o cão representa fidelidade e docilidade, contribuindo para o tom tranqüilo dessa tela em contrapartida com a índole selvagem da retratada. É como se a presença desse animal anulasse a agressividade que os membros humanos amputados emprestam à cena.

Ainda por entre as pernas da índia, observa-se ao fundo dois grupos de seis índios Tarairius com lanças, talvez partindo para alguma atividade de caça ou combate. No lado direito da tela, há uma grande árvore da espécie Cássia, tendo na base maracujás e flores. No lado esquerdo, há um aningaçu, planta indicadora da proximidade com o mar.

Talvez em Índia Tarairiu a presença de uma mão e de um pé cortados imprimiria por si só uma sensação aterradora no espectador, que naquela época já conhecia as histórias a respeito dos canibais das novas terras descobertas de além-mar. No entanto, há um forte contraste entre as sensações causadas por esses membros e o semblante quase dócil da índia, que não parece representar perigo algum.

Eckhout não a apresenta de maneira caricatural, embora não negue sua ferocidade intrínseca e nem a selvageria da prática da antropofagia aos olhos do observador europeu. Ele não parece condená-la por seus hábitos, mas também não se furta a informar o dado antropofágico.

A paisagem não parece reforçar a hostilidade: a presença do cão e do grupo humano ao fundo dispersam a sensação de isolamento agressivo. O céu ainda está nublado, mas o sol ensaia despontar no horizonte.

Richard Santiago Costa
14/04/2011

Bibliografia
1990 – C. do P. Valladares, L. E. de Mello Filho. Albert Eckhout – A presença da Holanda no Brasil, século XVII. Rio de Janeiro: Edições Alumbramento.
2002 – E. van den Boogaart. “A População do Brasil Holandês retratada por Albert Eckhout, 1641-1643”. In ECKHOUT volta ao Brasil 1644-2002. Nationalmuseet, Copenhagen, Denmark.
2002 – P. Mason. “Oito Grandes Quadros com Pessoas das Índias Orientais e Ocidentais. A Montagem Maravilhosa de Albert Eckhout”. In ECKHOUT volta ao Brasil 1644-2002. Nationalmuseet, Copenhagen, Denmark.

Artista

ECKHOUT, Albert

Data

1641

Local

Copenhagen, Museu Nacional da Dinamarca

Medidas

264 x 159 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Ciência Ilustração científica e Etnografia

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

1210 - Representações Etnográficas; 1210Ind - Indígenas e outras etnias americanas

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *