Virtù como Domitor Fortunae

“Com Nicola Maquiavel (1469-1527), a superioridade do saber
histórico e político sobre a Fortuna, o tema do triunfo da
Virtù sobre a Fortuna, passa a ocupar o centro
de gravidade da reflexão política e moral, e isto ao menos
até a fratura produzida pelo saque de Roma de 1527, data que
é também a da morte do grande florentino.

O tema central do “”Príncipe”” é a Virtù, pois após uma
rápida taxinomia inicial dos Estados (Repúblicas ou
Principados), ele fixa o objeto do célebre opúsculo nos
Principados recentes, anexados e adquiridos por “”armas
próprias””, isto é, pela força, audácia e astúcia do
Príncipe, em suma, por sua virtù.

O ano da redação do “”Principe””, 1513, é o mesmo da execução
(possivelmente parcial) do “”Moisés””* de Michelangelo e foi
notado que a associação entre Moisés e Júlio II tem por
denominador comum a passagem do capítulo VI do Príncipe, na
qual o nome de Moisés abre o elenco dos “”profetas armados””,
ou seja, “”daqueles que por seu próprio valor (per propria
virtù
), e não pelo favor da fortuna, tornaram-se
príncipes””. Basta ler o final do capítulo XXV do Principe,
para se dar conta da superioridade da guerra ofensiva sobre
a guerra de desgaste, aspecto crucial da superioridade da
Virtù sobre a Fortuna:

Io iudico bene questo: che sia meglio essere impetuoso
che respettivo: perché la fortuna è donna, ed è necessario,
volendola tenere, batterla e urtarla. E si vede che la si
lascia più vincere da questi, che da quelli che freddamente
procedano; e però sempre, come donna, è amica de´ giovani,
perché sono meno meno respettivi, più feroci e con più
audacia la comandano
.

“”Acredito bem nisto: que é melhor ser impetuoso que
timorato. Porque a fortuna é mulher, e é necessário, se se
quer controlá-la, bater-lhe e empurrá-la. E se vê que ela se
deixa vencer mais facilmente por estes, que por aqueles que
friamente procedem. E assim, sempre, como mulher, é amiga
dos jovens, porque são menos timoratos, mais ferozes e com
mais audácia comandam””.

A presente gravura de Marcantonio Raimondi, denominada
Virtù como Domitor Fortunae (Virtude como dominadora
da Fortuna), ilustra a metáfora da Fortuna como mulher e da
Virtù como um homem que a doma, empregada por Maquiavel na
passagem acima citada.

Não por acaso, ela é datada de 1510-1511, momento em que
Raimondi encontra-se em Florença, como bem atesta sua
gravura de um detalhe do cartão da “”Batalha de Cascina””,
datado de 1510.

Da mesma maneira, sobre o pórtico ao fundo do retrato de
Ferry Carondelet e de seus Secretários, pintado por
Sebastiano del Piombo em 1511-1512 (óleo sobre madeira, 113
x 87 cm, no Museo Thyssen-Bornemisza de Madri), lê-se a
inscrição Nosce oportu[nitatem], talvez o mote de
Carondelet, mas também tema por excelência do pensamento de
Maquiavel.

Luiz Marques
02/11/2011″

Artista

RAIMONDI, Marcantonio

Data

1510/ 1511

Local

Budapest, Museu de Belas Artes

Medidas

142 x 130 mm

Técnica

Água-forte

Suporte

Pintura

Tema

Alegorias e Temas Artísticos Morais e Psicológicos

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

746 - Virtudes, Vícios, Psicomaquia; 1100Vir - Virtudes não
especificadas; 130Fort - Fortuna, Tyché, Kairos, Occasio,
Nêmesis

Autor

Luiz Marques

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