Crucifixo de Santo Spirito

Na Vida de Michelangelo (1550 e 1568), Vasari escreve a respeito desta obra:

“Fez para a igreja de Santo Spirito da cidade de Florença um Crucifixo de madeira, posto e mantido na abside do altar-mor, com aprovação do prior, que lhe pôs à disposição alguns cômodos onde, dissecando amiúde cadáveres para estudar anatomia, aperfeiçoou a grande arte do desenho que veio a ter”.

O prior em questão, segundo Frey [1907QF:107], era certo Nicholaio di Giovanni di Lapo Bichiellini. Condivi (1553) precisa as medidas da obra: “poco meno chel naturale” (pouco menor que o tamanho natural).

Garris-Brandt e Capretti salientam os vínculos de Piero de´ Medici com os agostinianos da igreja de Santo Spirito, que em março de 1493 elegeram-no um dos operai encarregados de supervisionar a construção do vestíbulo e da sacristia da igreja brunelleschiana. Nesta posição, Piero poderia ter mediado a encomenda do Crucifixo. Se é este o caso, a obra teria por terminus post quem o mês de março de 1493, data da eleição de Piero.

Tolnay [1933:117] e [1943] publica um desenho da igreja, por Giovan Antonio Dosio, que documenta a localização original da obra no altar-mor da igreja, conforme atestado por Vasari. Entre 1600 e 1607, com a reforma do coro, ela é transferida do altar maior para a sacristia ou para o convento, perdendo-se em seguida seu rastro.

Em três ensaios (1963, 1964 e 1970) Margritt Lisner, revalorizando uma notícia setecentista do pintor I. Hugford, propõe identificar a obra com o presente Crucifixo, proposta fortalecida após sua restauração em 1964.

Tal como no Crucifixo de Brunelleschi em S. Maria Novella, o corpo de Cristo é representado nu, embora devesse ser originariamente recoberto por um perisoma que, segundo Lisner [1964:299], era de pano impregnado de gesso. O artista teria ele próprio executado o acabamento pictórico à têmpera.

Lisner [1964:309] chama a atenção para as relações prováveis de Michelangelo com Benedetto da Maiano que além de ser, por volta de 1490, o mais prestigioso escultor em mármore de Florença, tinha um ateliê especializado em Crucifixos de madeira.

Embora suas medidas sejam 139 x 135 cm, Lisner considera coincidentes suas medidas de altura e largura (135 cm.), vinculando Michelangelo à tradição vitruviana e medieval das proporções humanas – ao Homo Quadratus e ao Homo Circularis – de ressonâncias cósmicas.

Esta tradição estava já presente no Crucifixo de Brunelleschi (170 cm.) e é reelaborada por Francesco di Giorgio Martini, Luca Pacioli e Leonardo da Vinci, cujo celebérrimo desenho* da Galleria dell´Accademia de Veneza data justamente de 1485/1490c.

Também a proporção da cabeça em relação ao corpo (1/9) corresponde às que apregoará poucos anos depois Pomponio Gauricus em seu De Sculptura (1504), recolhendo uma tradição medieval.

Foram salientadas as relações entre o tipo do Cristo delgado – tais como o do Crucifixo de Santo Spirito e o de propriedade Gallino, recentemente atribuído a Michelangelo – e a pregação savonaroliana, tendente a intensificar a identificação dos devotos com os sofrimentos infligidos a Cristo. No Trattato dell´amore di Jesu Christo de Savonarola, de 1492, Savonarola elogia o tipo delgado do Cristo: “di nobile complessione, et tenera et delicata et molto sensibile”, de tal modo que “ogni minima pontura era a lui molto dolorosa” (cada mínima punção era-lhe muito dolorosa), cf. Fischer [1990:104].

A difusão desse tipo michelangiano nos anos 1490 e inícios do século sucessivo, em especial na obra de um artista piagnone como Fra´ Bartolomeo, deve-se verificar, portanto, não apenas em virtude do impacto da obra de Michelangelo, mas também através da duradoura influência de Savonarola.

A passagem de Vasari acima citada é preciosa também por instruir sobre os estudos de anatomia realizados então por Michelangelo.

Luiz Marques
12/01/2011

Bibliografia
1964 – M. Lisner, “Il Crocifisso di Santo Spirito”.Atti del Convegno di Studi Michelangioleschi. Florença Roma, 1964, Roma: Ed. dell´Ateneo, 1966, pp. 295-316
1964 – U. Procacci, U. Baldini, “Il restauro del Crocifisso di Santo Spirito”, ivi, pp. 317-321.
1999 – K. Weil-Garris Brandt, E. Capretti, “Crocifisso”. In, K. Weil-Garris Brandt, C. Alcidini Luchinat, J. David Draper, N. Penny, Giovinezza di Michelangelo. Catálogo da Exposição. Florença. Florença: ArtificioSkira, p. 288.

Artista

Michelangelo Buonarroti

Data

1493c.

Local

Florença, Santo Spirito

Medidas

139 x 135 cm

Técnica

Madeira

Suporte

Escultura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

608 - Crucifixos

Autor

Luiz Marques

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