O Músico Fritz Schneklud (U paûpa Schneklud)

“Assinado e datado 1894, o quadro traz a inscrição “”U paûpa Schneklud””. A palavra em língua maori designa uma dança fortemente rítmica e erótica.

Pintado em Paris após a primeira estada de Paul Gauguin (1848-1903) no Tahiti, o retrato representa o violoncelista e compositor sueco, Fréderic Guillaume Schneklud (1859-1930), com os traços, contudo, do próprio artista. Fritz Schneklud, como era mais conhecido, frequentava então regularmente o ateliê de Gauguin na rue Vercingetorix, em Paris, e seu retrato/autorretrato representa um ponto de culminância nas ideias do pintor sobre as equivalências entre cor e som. De fato, cinco anos antes, em 1889, Gauguin escrevia ao poeta e crítico belga, André Fontainas:

“”Penso também na função musical que a cor doravante passará a desempenhar na pintura moderna; cor, que, justamente como as ondas oscilantes em música, é capaz de exprimir o que há de mais universal e, portanto, de mais vago na natureza: sua força intrínseca””.

Como observa Karin von Maur, em 1895, Gauguin volta ao tema da equivalência entre música e pintura:

“”Tudo em minha obra é calculado e longamente considerado. Isto é música, por favor! Por meio de arranjos de linhas e cores, sob o pretexto de algum tema da vida ou da natureza, chego a sinfonias e harmonias que não evidenciam absolutamente nada real, na acepção usual da palavra, não expressam ideias, mas se destinam a provocar pensamentos, como música… simplesmente através das misteriosas afinidades entre nossos cérebros e tais arranjos de linhas e cores””.

As densas ondas de vermelho escuro do violoncelo que vibram pela tela e se refletem ainda na cabeça do músico, em contraponto com as notas ligeiras de cores claras das flores em suspensão no espaço, parecem demonstrar à saciedade a efetividade de tais postulados.

É certo que desde Schopenhauer, a música subitamente ganhara um novo estatuto na hierarquia das artes, substancialmente por seu caráter não representacional, mas a assunção de uma equivalência entre pintura e música – em detrimento do ut pictura poesis da tradição clássica – não conquista senão a partir dos anos 1860 posições de mais difundido prestigio entre os pintores. Em Paris desde 1855, James Whistler, começava já em 1862 a dar a seus quadros títulos musicais como Symphony in White, Symphony in Blue and Pink, Symphony in Flesh Colour and Pink (1873), etc.

Com o Músico Fritz Schneklud, afirma-se mais resolutamente essa vontade, doravante comum a tantos artistas, de abdicar de uma cultura figurativa propriamente dita e de dissolver a especificidade retórico-figural da pintura, em prol de uma comunicação mais diretamente sensorial com as formas, consubstanciada em diversas tentativas de captar experiências elementares da percepção do mundo. De onde, ainda, a emergência coetânea de uma psicologia da forma e, no caso particular deste retrato, a vontade de Gauguin de sublinhar, regressivamente, o caráter modal, rítmico-erótico, da música de “”U paûpa Schneklud””. Não por outra razão, a partir dos últimos anos de Van Gogh (1888-1890) e Gauguin (1894-1903) acelera-se a convergência entre pintura e música, convergência que se instala, enfim, de Matisse à abstração, no centro da reflexão e da prática artísticas.

Luiz Marques
19/06/2011

Bibliografia:
1999 – K. v. Maur, The Sound of Painting. New York: Prestel, p. 19.”

Artista

GAUGUIN, Paul

Data

1894

Local

Baltimore, The Baltimore Museum of Art

Medidas

92,5 x 73,5 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

50 - SÉCULO XIX

Index Iconografico

1163 - O Músico e a cena musical; 1165 - Os Instrumentistas e a Música instrumental

Autor

Luiz Marques

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