Pietà. Detalhe 2

(continuação do texto que acompanha imagem do Detalhe 1)

Como escreve Vasari (veja o texto que acompanha a imagem principal), esta Pietà é a única obra assinada de Michelangelo.

Lê-se na inscrição sobre o cinto que perpassa o peito da Virgem, em letras romanas compenetradas:

“MICHAEL.ANGELUS. BONAROTUS. FLORENT. FACIEBAT”.

A fórmula do imperfeito “faciebat” (fazia ou estava fazendo) ao invés do mais comum “fecit” (fez) foi notada como um traço de erudição decorrente das pesquisas epigráficas de Poliziano durante sua viagem a Roma em 1488.

Vasari refere-se ao pretenso autor da obra como o “Gobbo da Milano” (“Gobbo” significa corcunda). Segundo Barocchi (ad locum), que salienta a pouca plausibilidade da narrativa, o Gobbo a que a carta se refere seria o arquiteto e escultor Cristoforo Solari (1460c.-1527), ativo na decoração escultórica da catedral de Milão e autor, entre outras obras, do monumento funerário de Ludovico il Moro e sua esposa, Beatrice d´Este, na Cartucha de Pavia.

A anedota envolve a questão da superação por Michelangelo da tradição escultórica vêneto-lombarda, personificada em Cristoro Solari, hegemônica em Roma em finais do século XV.

Giovanni Agosti nota que “Michelangelo e Cristoforo Solari, de fato, não estão unidos apenas pela ocasional menção vasariana, mas comparecem juntos em mais de uma fonte de inícios do século XVI, e quase tiveram um cliente comum, o cardeal Francesco Piccolomini. Uma provável estada romana do escultor lombardo (…) em 1499, pode ter acirrado a rivalidade”.

Pode-se ainda pensar se a atribuição da obra a um artista da Itália setentrional não seria sintomática de uma eventual origem nórdica do protótipo iconográfico desta Pietà, em conformidade com a nacionalidade do cardeal de Saint Denis.

De fato, o modelo iconográfico foi por vezes associado ao tipo da Vesperbild ou da Andachtbild/i> alemãs e também a exemplares da arte provençal quatrocentista, o mais conhecido dos quais sendo a Pietà Villeneuve lès Avignon (têmpera sobre madeira, 162 x 218, 1460c., Louvre) de Enguerrand Charonton, com o Cristo deitado transversalmente sobre o colo da Virgem.

Contrariando a hipótese de uma origem franco-germânica da escultura, Tolnay [1943] aponta modelos italianos desta composição desde o final do século XIV e Parronchi [1968/81:III,71] propõe uma “provável fonte quatrocentista” para a Pietà de Michelangelo em uma terracota policrômica, outrora na SS. Annunziata de Florença, que ele atribui a Dello Delli (1420c.), artista prenunciador da corrente tardogótica que “corre subterrâneamente na escultura durante a segunda metade do Quatrocentos florentino”.

Em agosto de 1499, o Cardeal Jean Bilheres de Lagraulas, comitente da obra, morre e em 3 de julho de 1500 um pagamento de 230 ducados é creditado a Michelangelo pelo banco sienense de Ghinucci, o mesmo que se ocupara das despesas dos funerais do cardeal.

Deve-se supor, portanto, que por essa data a escultura estivesse totalmente concluída, o que perfaz um tempo de execução possivelmente um pouco inferior a 22 meses.

Luiz Marques
21/01/2011

Bibliografia:
1927 – E. Panofsky, Imago Pietatis: ein Beitrag zur Typengeschichte des Schmerzensmannes und der Maria Mediatrix. Festschrift für Max J. FriedLänder zum 60. Geburtstage. Leipzig, pp. 261-308. Trad. fr., Paris: Flammarion, 1997.
1938 – R. Wittkower, “A note on Michelangelo´s ´Pietà´ in St. Peter´s”. Journal of the Warburg and Courtauld Institutes, II, 1938 39, pp. 80-83.
1943 – C. de Tolnay, Michelangelo. Volume I: The Youth of Michelangelo. Princeton University Press, 1969, pp. 145-150.
1985 – M. Hirst, “Michelangelo, Carrara and the Marble for the Cardinal´s Pietà”. The Burlington Magazine, 127, pp. 154-159.
1986 – G. Agosti, “La fama di Cristoforo Solari”. Prospettiva, 46, pp. 57-65.
1987 – K. Weil Garris Brandt, “Michelangelo´s Pietà for the Cappella del Re di Francia”. Il se rendit en Italie: Etudes offertes à André Chastel. Roma, Paris: Edizioni dell´Elefante, Flammarion, pp. 77-120.
1989 – M. Calvesi, “La ´Pietà´ di Michelangelo”. La Basilica di San Pietro. Florença: Nardini, pp. 125-127.
1992 – – W.E. Wallace, “Michelangelo´s Rome Pietà: Altarpiece or Grave Memorial?”. In, S. Bule, A. Ph. Darr, F. Superbi Gioffredi, eds., Verrocchio and Late Quattrocento Italian Sculpture. Florença: Le Lettere, pp. 243-255.
2000 – A. Paolucci, Les Pietà. Paris: Skira/Seuil.

Artista

Michelangelo Buonarroti

Data

1498/ 1500

Local

Roma (Vaticano), Basílica de São Pedro

Medidas

174 cm

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

613 - Pietà

Autor

Luiz Marques

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