Studiolo de Francesco I

“A partir de agosto de 1570, Francesco I dei Medici (1541 –
1587) ordena que o ambiente outrora destinado a seu próprio
dormitório seja convertido em um Studiolo.

A tal fim, ele foi decorado por uma equipe de artistas
florentinos, dentre os quais se contam, entre outros, os
escultores Vincenzo Danti, Giambologna e Vincenzo De Rossi e
os pintores Giovanni Stradano, Alessandro Allori, Alessandro
Fei del Barbera, Santi di Tito, Mirabello Cavallori,
Girolamo Macchietti, Maso da San Friano, Giovanni Battista
Naldini, Francesco da Poppi e Giorgio Vasari (1511-1574),
diretor da equipe.

Neste ambiente foram colocados 34 telas, em dois registros
superpostos, sendo o inferior composto por pinturas ovais.
Os dois tondos sobre os tímpanos representam os pais de
Francesco I, Cosimo I e Eleonora. Nos ângulos do registro
superior surgem 8 estátuas de bronze, enquanto a cobertura
em abóbada de berço, decorada em estuques acolhe afrescos
executados por Francesco da Poppi (1544-1597).

A decoração, profundamente unitária e solidária do interesse
de Francesco I pelo alquimia, desenvolve-se a partir de um
concetto detalhado por Don Vincenzio Borghini em
diversas cartas a Vasari, e centrado na seguinte ideia:

Et perché la natura ha per subietto, nelle sue
operazioni, et effetti principalmente i quattro elementi,
de´ quali due sono come il corpo et le materie di queste
cose, che è la terra e l´acqua; gli altri due servono per
efficienti et per operatori, che è l´aria et molto più il
fuoco, essendo le facce quattro, io ne accomoderei uno per
ciascuna in quel miglior modo che si potessi

“”E porque a natureza tem por objeto, nas suas operações e
efeitos principalmente os quatro elementos, dos quais dois
são como o corpo e as matérias destas coisas, que são a
terra e a água; os outros dois elementos servem como
eficientes e como operadores, que são o ar e muito mais o
fogo. Sendo quatro as paredes, eu adaptaria um elemento para
cada uma delas no melhor modo que se pudesse””.

De fato, como bem demonstrado por Luciano Berti, esse
complexo programa articula-se em correspondências
tetrádicas de matriz hipocrática, retomadas a partir da
enciclopédia de Isidoro de Sevilha (560/570 – 636), as
Etimologiae. Tais correspondências tecem a trama do
cosmos envolvendo as quatro Idades do Homem, os quatro
Elementos, as quatro Estações do ano e os quatro
Temperamentos:

As quatro idades do homem:
Inventus (adolescentia)
Decrepita Aetas
Pueritia
Senectus

Os quatro elementos:
Ignis (calidus, siccus)
Aqua (humida, frigida)
Aer (calidus, humidus)
Terra (frigida, secca)

As quatro estações:
Aestas (verão)
Hymes (inverno)
Ver (primavera)
Autumnus (outono)

Os quatro temperamentos:
Calor (colérico)
Humor (fleumático)
Sanguis (sanguíneo)
Melancholia (melancólico)

A partir destas correspondências, o Studiolo traça um
retrato alegórico do Príncipe, que surge no ponto de
encontro destas oposições tetrádicas, as quais, por sua vez,
articulam oposições entre o Macrocosmo e o Microcosmo, entre
Natureza e Arte, entre o Princípio feminino passivo e o
masculino ativo, de cuja união se obtém a fecundação; entre
as esferas do público (Cosimo) e do privado (Eleanora) e
entre as técnicas e os mitos, consubstanciados em 8
divindades.

Tratava-se de um ambiente sumamente extravagante, reservado
à reflexão solitária e à custódia dos objetos mais preciosos
do Príncipe, tal como o resume admiravelmente Luciano Berti:

“”Sem janelas, destinado portanto a uma iluminação artificial
e talvez móvel, fechado como o interno de uma caixa-forte e
recheado de preciosidades nos armários, privatíssimo, o
Studiolo é o oposto do adjacente Salone dei Cinquecento,
vasto, público, celebrativo. Seu ´noturnismo´ significa, ao
contrário, retiro, interrogação dos mistérios naturais,
introversão””.

Esta percepção do Studiolo retoma e aprofunda a de Eugenio
Battisti que, em L´Anti-Rinascimento (1962), faz notar como
o Studiolo deva ser colocado sob o signo do noturno: “”Ao
Renascimento solar, à maneira da segurança do homem
dominador e sapiente (…), sucede um Renascimento noturno,
shakesperiano, perturbado pela amargura, consciente dos
próprios limites””.

O Studiolo foi desmantelado em 1584 e hipoteticamente
reconstruído em 1910 por Giovanni Poggi, Soprintendente ai
Beni Artistici e Storici de Florença, a partir da ampla
documentação disponível. Apenas os lambris são modernos.

Luiz Marques
08/12/2011

Bibliografia:
1962 – E. Battisti, L´Antirinascimento, Turim, 2005, pp.
245-253.
1965 – W. Vitzthum, Lo Studiolo di Francesco I. Milão
1967 – L. Berti, Il Principe dello Studiolo. Francesco I del
Medici e la fine del Rinascimento fiorentino, Florença: Ed.
Edam
1977 – W. Liebenwein, Studiolo. Storia e tipologia di uno
spazio culturale. Ed. italiana aos cuidados de C. Cieri Via,
Ferrara: Franco Cosimo Panini, pp. 126-130.”

Artista

VASARI, Giorgio

Data

1570- 1575

Local

Florença, Palazzo Vecchio

Medidas

desconhecido

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Alegorias e Temas Artísticos Morais e Psicológicos

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1213 - Studioli, Cabinet de Curiosités e Wunderkammern;
10Elem - Os Quatro Elementos; 1150Isid - Isidoro de Sevilha;
1153 - A Alquimia e o Alquimista; 12A1 - Divindades olímpicas
sem narração

Autor

Luiz Marques

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